A criança de 4 anos agredida por uma professora com uma pilha de livros em uma escola de Caxias do Sul, na Serra do RS, segue se alimentando com a ajuda de canudo ou com comidas pastosas, segundo sua mãe, que prefere não se identificar. O menino perdeu um dente e também precisou colocar aparelho para estabilizar outros dentes afetados.
— Na medida do possível, estamos nos mantendo. De canudinho, estamos conseguindo aos poucos a reintrodução com uma colherinha de silicone, alimentos pastosos, líquidos e triturados — relatou a mãe.
— Com muito amor, resiliência e paciência! Segue com os seis dentinhos comprometidos, realizando tratamento odontológico minucioso — completou.
A prisão preventiva da professora Leonice Batista dos Santos, de 49 anos, foi decretada após a Polícia Civil identificar indícios de que a educadora pretendia deixar a cidade. Ela foi presa na manhã da última sexta-feira (22) em Palmeira das Missões, no Norte do estado.
De acordo com a delegada Thalita Giacomiti Andriche, responsável pelo inquérito, o caso é tratado como maus-tratos qualificado pela lesão grave. Ela não descarta que o crime também possa ser enquadrado como tortura.
— A diferença entre os dois crimes é sutil, mas estamos analisando todos os laudos. A tortura se configura quando há sofrimento físico e mental intenso com finalidade educativa, o que pode ter ocorrido neste caso — detalhou.
— Havia indicativos de que ela pretendia se evadir de Caxias do Sul, especialmente após a repercussão do caso e a depredação da residência dela. O clamor social estava muito forte —explicou a delegada.
Além do episódio envolvendo o menino de 4 anos, outras duas famílias registraram boletins de ocorrência contra a mesma professora, relatando agressões físicas e psicológicas a crianças de 6 anos em 2024.
— São fatos pretéritos, então não conseguimos realizar exames de lesão, mas os relatos indicam abuso dos meios de correção, o que caracteriza maus-tratos — afirmou a delegada
Em seu depoimento, a professora optou por permanecer em silêncio e não se manifestou sobre os fatos. Ela foi acompanhada por um advogado.
O advogado Henrique Bischoff Hartmann, responsável pela defesa de Leonice em Palmeira das Missões, informou ao g1 que ela “permanecerá em silêncio”.
O caso
O fato aconteceu na última segunda-feira (18). Nas imagens registradas pela câmera de segurança da escola, a professora aparece gritando com o menino e, logo depois, atingindo ele com uma pilha de livros. É possível ouvir o barulho da batida. Em seguida, a docente coloca os materiais sobre uma mesa, pega um papel para limpar a criança e, por fim, a conduz para outro local.
Segundo os pais, a educadora foi a primeira a entrar em contato e afirmou que a criança havia sofrido uma queda no banheiro e batido a boca. No entanto, ao levarem o filho ao consultório de uma dentista, ouviram dela que os ferimentos talvez não fossem resultado de uma queda.
— E pelo que as dentistas também falaram… “Rapaz, só um tombo, né? Causar tanto machucado numa criança?” Com isso começou a surgir a dúvida — conta o pai.
Os pais pediram imagens de câmeras de segurança para verificar o que realmente havia acontecido.
Pouco tempo depois, a escola retornou a ligação dizendo que o assunto era urgente e pedindo que eles eles fossem até a instituição. Lá, os pais viram o vídeo e ficaram sabendo o que aconteceu. A escola se desculpou com os pais.
Professora foi demitida
A Escola Infantil Xodó Da Vovó, que atende cerca de 90 alunos, demitiu a profissional após verificar as imagens das câmeras de segurança. A direção também acompanhou os pais até a delegacia e entregou o material à polícia.
— Se chega a quebrar o pescoço do meu filho ali naquela mesa… Eu tenho certeza que de 8 a 10 kg, com certeza, tem naqueles livros lá — diz o responsável pela criança.
A direção divulgou, em nota, que “segue à disposição das famílias para quaisquer esclarecimentos e reitera seu compromisso diário com uma educação baseada no cuidado, na ética e no bem-estar das crianças”.
O aluno estava na escola há cerca de dois meses.
Como está o menino
Conforme informado pelos pais, o menino está em recuperação, mas enfrenta restrições alimentares e emocionais.
— Ele não pode fazer força nos dentes. Então, é só papinha, só iogurte, sopinha, arroz e feijão amassado. É triste falar, é ruim. Sinto ele muito com medo. Qualquer barulho para ele, ele está assustado, até conosco. E é um trauma. Fica um trauma. Trauma para sempre — desabafa o pai.
Apesar do choque, os pais afirmam que não culpam a escola, mas querem justiça.
— Quero que ela vá presa. A situação é difícil. O pior de tudo é ver o filho da gente ter que almoçar de canudo, jantar de canudo. Isso é o que mais dói. Isso não se faz, é um inocente — disseram.
O que diz a escola
“A Escola Xodó da Vovó lamenta profundamente o episódio ocorrido envolvendo uma professora e um de nossos alunos. A profissional foi imediatamente afastada, as autoridades policiais comunicadas e a família da criança está recebendo todo o apoio necessário. Reforçamos que a apuração dos fatos e a devida responsabilização estão sendo conduzidas pelas autoridades competentes, que contam com o total apoio e colaboração desta instituição.
Reafirmamos nosso compromisso inegociável com a segurança, o respeito e a integridade de todos os nossos alunos e não toleraremos situações que contrariem os valores desta Escola Infantil. Seguiremos colaborando integralmente com as autoridades e trabalhando para garantir um ambiente seguro e respeitoso para todos os nossos alunos.
A Escola Xodó da Vovó segue à disposição das famílias para quaisquer esclarecimentos e reitera seu compromisso diário com uma educação baseada no cuidado, na ética e no bem-estar das crianças. Estamos juntos com nossa comunidade para fortalecer ainda mais um ambiente de confiança, aprendizado e acolhimento.
Departamento Jurídico
Escola Xodó da Vovó”
Fonte: GZH


















