Por: Isaac Carmo Cardozo – Colunista
O bom de andar a pé pela cidade é que temos mais tempo para admirar e prestar atenção naqueles que cruzam nosso caminho. É notório que nossa tradição é rica, fruto dos que aqui passaram e construíram este legado que, dia após dia, procuramos repassar àqueles que estão chegando.
Sempre que se contempla a figura de um gaúcho, contempla-se também a história de um povo, de uma cultura e de uma tradição que se mantém viva através dos anos, de diferentes formas.
A estampa missioneira da nossa fronteiriça São Francisco de Borja é marcada por muitas figuras. Entre elas, está o gaúcho anônimo — aquele que, em sua rotina diária, vive naturalmente aquilo que recebeu de seus avós e transmitiu a seus filhos.
É nesse gaúcho com seu chapéu tapeado, que vem ao trote, montado em seu cavalo, puxando outro a cabresto, acompanhado do fiel cachorro, que vemos refletida nossa essência. Sua fisionomia, marcada pelo bigode e pelos cabelos embranquecidos pelas geadas dos agostos violentos da fronteira, carrega também a sabedoria e o conhecimento de uma vida inteira. Ainda que não seja aplaudido em palcos, ele representa nossa tradição apenas por existir, apenas por viver como vive.
Tudo evolui, tudo muda, mas precisamos manter nossas raízes firmes, fincadas naquilo que foi o princípio de tudo: a construção deste nosso Estado.
Com a chegada de setembro, mês que é símbolo da nossa cultura e tradição, celebramos a Semana Farroupilha. É o tempo em que o povo se reúne em piquetes e entidades, reafirmando sua identidade e valorizando aqueles esteios que carregam a tradição durante todo o ano.
Não há como não se encantar ao ver este gaúcho: montado em seu cavalo, puxando a cabestro a nossa tradição e tendo, ao fundo, o ipê-roxo florido. Essa cena nos lembra que, às vezes, é preciso apear de nossa rotina frenética e observar os pequenos momentos que a vida nos oferece, mas que muitas vezes passam despercebidos.
Nossa tradição não foi inventada, não precisa ser modificada. Ela é herança. É aquilo que recebemos, cultivamos e devemos repassar, para que siga firme como forma de vida missioneira, fronteiriça e, acima de tudo, gaúcha.
Que nunca esqueçamos de respeitar aqueles que vieram antes de nós, que enfrentaram tantas dificuldades e que ainda têm muito a nos ensinar.

Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.


















