Por: Isaac Carmo Cardozo – Colunista
Da série “Aqueles cernes que construíram e são baluartes da nossa tradição gaúcha e da nossa cultura regional”, tive a grata satisfação de conhecer Juvenal Antunes Brites, de 77 anos.
Um homem da lida do campo, que carrega na palma das mãos as marcas do tempo — marcas de uma vida bruta, dedicada ao chão batido das estâncias.
Encontrei-o numa noite fria de setembro, quando a chuva fina caía sem cessar, molhando a alma e o corpo de quem andava pelas ruas. Seu Juvenal estava sentado no restaurante da rodoviária, saboreando um pastel e um refrigerante. O chapéu, firme na cabeça, bem preso pelo barbicacho; a fala, pausada e curiosa; as botas bem lustradas, a bombacha e a guaiaca mostrando o orgulho de sua origem.
Aproximar-me dele foi inevitável. Descobri, então, um universo inteiro em sua história: já foi peão de estância, tropeiro, capataz… Conheceu os rumos de várias fazendas da nossa querida São Borja. Morador da Vila Brites, lugar que carrega com orgulho o nome de seus antepassados. Vem à cidade quando precisa cuidar da saúde, já delicada com o passar dos anos.
Na conversa, viajamos no tempo. Mostrei-lhe fotos, lenços, facas e outros materiais antigos — peças que para ele não eram relíquias de museu, mas companheiras de uma vida. Relembrou amigos, trabalhos, viagens. E, com o olhar firme, falou do amor pelo Rio Grande do Sul, pela sua terra, pelo seu torrão querido.
Conversar com homens assim é como sentar diante de um pilar que sustenta nossa tradição. Eles nos revigoram, lembrando-nos que temos origem, que temos raiz, que temos história.
Enquanto aguardava o ônibus da Planalto, que o levaria de volta à vila, não se esqueceu de comprar um pacote de fumo e papel de seda — vício que, segundo ele, nunca conseguiu largar. Segue Seu Juvenal, como seguem as estações do ano: vivendo um dia de cada vez, carregando no peito a tradição, a cultura, o legado e a memória daqueles que vieram antes de nós.
Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.



















