Quatro horas se passaram entre a prisão de dois suspeitos em Guaíra, no Paraná, com veículos roubados, e a morte de um agricultor, durante uma ação da Brigada Militar (BM), na área rural de Pelotas, no sul do RS. Segundo a própria BM, uma informação falsa, que teria sido repassada pelos presos à Polícia Militar paranaense, foi o que levou os policiais até a propriedade da vítima, por acreditar que ali haveria um depósito guarnecido por criminosos armados.
O produtor rural Marcos Nörnberg, 48 anos, foi morto a tiros, por volta das 3h de quinta-feira (15). Ao menos 18 policiais do 4º Batalhão de Polícia Militar e do 5º Batalhão de Choque, ambos de Pelotas, participaram da ação — eles foram afastados das funções temporariamente.
Os brigadianos ocupavam três veículos, e, dessa forma, chegaram à propriedade da vítima. Ao acordar com a casa cercada por homens armados, o produtor de morangos pensou se tratar de um assalto, segundo o relato da mulher dele, e reagiu com uma arma de fogo. Ele foi morto a tiros dentro de casa.
Presos por receptação
Na manhã de terça-feira (13), por volta das 8h, o caseiro de uma propriedade na área rural de Pelotas — a apenas três quilômetros da casa de Nörnberg — teria sido rendido por criminosos. Ele relatou aos policiais que foi mantido em cativeiro por mais de 36 horas.
Nesse período, os quatro bandidos armados, vestidos de preto, encapuzados e com luvas, teriam tentado fazer com que o caseiro atraísse o dono da propriedade até o local. No entanto, isso não chegou a acontecer. O caseiro relatou que conseguiu se libertar por volta das 21 horas de quarta-feira, depois que os bandidos fugiram.
Dois carros roubados na propriedade foram localizados no Paraná, menos de duas horas depois de o caseiro escapar do cativeiro. Por volta das 22h45min, a Polícia Militar de Guaíra localizou uma S10 e uma EcoSport.
Segundo o registro feito pela PM de Guaíra, os veículos, com alerta de roubo, foram flagrados por câmeras de monitoramento. Os carros estavam transitando pelo município de 33 mil habitantes, localizado na fronteira com o Paraguai — a cerca de mil quilômetros de Pelotas. Não é incomum que criminosos façam esse percurso para levar carros ao Paraguai, onde são repassados em troca de carregamentos de drogas.
Na Avenida Marcelino Rolon, em Guaíra, policiais visualizaram a EcoSport. Dentro do carro, estava Alan Fagundes Gonçalves, 20 anos, morador de Pelotas, no bairro Feitoria, e uma mulher, de Guaíra. Ainda conforme a ocorrência, Alan disse que estava na cidade a passeio e que o carro havia sido emprestado por um amigo. Depois, admitiu ter recebido o veículo de outro homem, identificado no registro apenas como Kauã, 21 anos.
Kauã foi localizado pelo Batalhão de Polícia de Fronteira na Avenida Almirante Tamandaré. Ele na S10 roubada, que estava estacionada perto de um restaurante. Com ele, estava outra mulher, de 23 anos.
Presos, eles relataram que deveriam transportar os veículos até o Paraguai, onde receberiam R$ 1 mil cada um. A mulher detida junto de Alan disse que havia sido contratada como acompanhante junto de uma amiga, que estava no carro com Kauã. Elas teriam sido pagas para acompanhar os dois no trajeto — possivelmente, segundo a polícia, para tentar evitar suspeitas.
Os quatro foram levados para a 13ª Delegacia de Polícia de Guaíra, onde foram ouvidos. A Polícia Civil do Paraná informou que não detalhará o depoimento dos presos, mas explicou que as mulheres foram libertadas mediante pagamento de R$ 5 mil de fiança. Já os dois homens foram mantidos presos, pelo crime de receptação, e não tiveram direito a fiança porque já tinham antecedentes criminais, por tráfico de drogas, roubo e adulteração de veículo.
Informação errada
O que aconteceu depois disso ainda não está esclarecido. Segundo a BM, a partir de relatos dos dois presos, a Polícia Militar do Paraná informou sobre a existência de um depósito de armas e outros veículos roubados, na área rural de Pelotas.
Conforme o comandante-geral da Brigada Militar, coronel Claudio dos Santos Feoli, a informação repassada era de que neste local haveria cinco criminosos armados, ligados a uma facção com atuação em Pelotas. Depois disso, a BM teria ido até a propriedade do agricultor que acabou morto.
— Nos parece preliminarmente, e aí, claro, nós temos uma investigação pela frente para verificar todas as circunstâncias que, de fato, envolvem esta ocorrência, que nós tivemos um grande mal-entendido com desfecho trágico — disse o comandante-geral.
Por volta das 3h, os policiais ingressaram na propriedade da vítima. Segundo a própria BM, somente policiais militares participaram da ação, sem a presença da Polícia Civil. Os policiais não tinham mandado de busca para ingressar na propriedade.
Nesta sexta-feira (16), o corregedor-geral da Brigada Militar, coronel Rodrigo Assis Brasil Ramos Aro, disse que o inquérito policial militar aberto apura as circunstâncias em que se deu a morte do agricultor. O corregedor evitou emitir juízo prévio sobre a ação dos policiais.
— A notícia que nós temos é de que (a troca de informações) se deu entre a inteligência local da unidade do Paraná e a inteligência de Pelotas. Isso vai ser alvo de apuração do inquérito. No caso, a notícia que se tinha é da reunião de cinco indivíduos de uma facção criminosa, armados, na posse de entorpecentes — disse o oficial.
O delegado Cesar Nogueira, da Delegacia de Homicídios de Pelotas, afirmou nesta sexta-feira que, como as propriedades são próximas, é possível que a pista dos presos no Paraná fosse relacionada ao local do assalto, onde o caseiro foi rendido, e não à casa dos Nörnberg. Isso será verificado pela investigação. A polícia ainda apura se os homens flagrados com os veículos tiveram participação no roubo à propriedade.
Fonte: GZH

















