Nestes dias, em uma conversa saudosista sobre personagens que marcaram a história de nossa São Borja, ao lado de Tertuliano Borges do Canto, veio-nos à lembrança a figura do Padre Paulo Aripe, carinhosamente conhecido como Padre Potrilho.
Sacerdote profundamente ligado à cultura gaúcha, Padre Paulo Aripe era um incansável pesquisador, autor de diversos livros e grande entusiasta de novos autores. Entre aqueles que receberam seu apoio destaca-se Zeneu Pinto, músico, poeta e trovador cego, morador do Bairro do Passo, que sustentava sua família com a venda de bilhetes. Padre Aripe foi o editor de sua obra “Tradição e Fé – Versos Crioulos”, contribuindo decisivamente para que esse autor publicasse sua obra.
Entre as obras mais importantes de Padre Aripe, destaca-se, sem dúvida, a Missa Crioula, que alcançou todo o Estado do Rio Grande do Sul. A Missa Crioula foi criada no ano de 1967 por Padre Paulo Aripe e Amadeu Gomes Canela, após autorização do Bispo de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer, e do Vaticano, durante o pontificado do Papa Paulo VI.
Recordo-me, com especial emoção, do período em que servi como soldado clarim no 4º Regimento de Polícia Montada – Regimento Bento Gonçalves. Durante a Semana Farroupilha, o então capelão da Brigada Militar, Padre João Peter (in memoriam), solicitava meus préstimos para executar o toque de silêncio no momento que simbolizava a morte de Cristo durante a Missa, e o toque de vitória ao anunciar o seu ressurgimento. Esses momentos refletiam a profunda integração entre fé, tradição e simbolismo, valores tão incentivados por Padre Potrilho.
Grande incentivador do tradicionalismo gaúcho, Padre Paulo Aripe deixou um legado de inúmeros livros que hoje são referência, sendo autor da coleção “A Igreja nos Galpões”, conforme registros disponíveis. Nascido em Uruguaiana, em 11 de junho de 1936, teve forte atuação em São Borja, onde manteve um programa radiofônico marcante, conhecido por seu tom crítico e, por vezes, polêmico, especialmente em relação ao Poder Executivo municipal. Relata Tertuliano que, certa feita, o então prefeito Paulo Maurer do então PMDB, teria conseguido sua transferência para outra cidade, em razão das críticas feitas no rádio. Segundo fontes, Padre Potrilho mantinha relação mais próxima com o adversário político do então prefeito, que era José Pereira de Álvarez, o “Juca”.
Apaixonado pela vida campeira, Padre Potrilho gostava de andar a cavalo, organizava cavalgadas e participou da fundação do Centro Nativista Boitatá. Foi pároco nas cidades de Santa Maria, São Francisco de Assis, São Borja e Alegrete, cidade onde veio a falecer, aos 71 anos, no ano de 2008.
Em São Borja, atuou na Paróquia Imaculada Conceição, no bairro do Passo, nos períodos de 1974 a 1975 e, posteriormente, de 1988 a 1997. No livro comemorativo dos 50 anos do Centro Nativista Boitatá, consta que Padre Paulo Aripe propôs o lema “Ontem, Hoje e Sempre”, fazendo uma analogia teológica e bíblica a Deus como princípio, meio e fim, aplicada ao contexto histórico da entidade. Também participou da primeira gestão do Centro Nativista Boitatá, especialmente na Invernada Cultural.
Padre Paulo Aripe deixou um legado marcante de tradição, cultura e regionalismo, promovendo a integração do tradicionalismo gaúcho ao catolicismo por meio da Missa Crioula e de sua atuação pastoral e cultural, que permanece viva na memória e na identidade de São Borja.

Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

















