O primeiro mês de 2026 ainda não terminou, mas já expõe um cenário preocupante quando o assunto é a violência contra animais no Brasil. Casos recentes, amplamente repercutidos em diferentes regiões do país, evidenciam que os maus-tratos seguem sendo uma realidade alarmante e exigem reflexão, responsabilidade e ação efetiva do poder público e da sociedade.
Em Santa Catarina, o país se chocou com a morte do cão comunitário conhecido como Orelha, brutalmente espancado por um grupo de jovens na Praia Brava, em Florianópolis. O animal, que era cuidado por moradores da região, foi encontrado gravemente ferido e levado a atendimento veterinário. Diante da gravidade das lesões, a eutanásia foi a única alternativa para cessar o sofrimento. O caso gerou forte comoção nacional e reacendeu o debate sobre crueldade contra animais.
Poucos dias depois, outro episódio ampliou ainda mais a discussão. No Rio Grande do Sul, um cão comunitário chamado Negão foi baleado por um policial da Brigada Militar durante uma abordagem no município de Campo Bom. A ação, registrada por câmeras de segurança, provocou indignação e levou à abertura de investigação pela Corregedoria da corporação para apurar a conduta do agente e a proporcionalidade do uso da força.
Embora distintos, os dois casos convergem para o mesmo ponto: a fragilidade na proteção de animais, especialmente daqueles que vivem em espaços públicos e dependem do cuidado coletivo. Cães comunitários ainda enfrentam preconceito, abandono e, em situações extremas, violência injustificável.
Os números reforçam a gravidade do problema. Dados do Conselho Nacional de Justiça indicam que 2025 terminou com quase cinco mil processos por crimes de maus-tratos a animais, uma média de 13 novos casos por dia em todo o país. Em estados como Santa Catarina e São Paulo, os registros cresceram de forma expressiva nos últimos anos, revelando um cenário que preocupa autoridades, entidades de proteção animal e a sociedade civil.
É inegável que o aumento das denúncias reflete maior conscientização da população. Ainda assim, a repetição de episódios de crueldade demonstra que a legislação, embora mais rigorosa, nem sempre tem sido suficiente para coibir práticas violentas. A lei prevê punições severas, mas sua efetividade depende de investigação célere, responsabilização exemplar e políticas públicas contínuas.
O combate aos maus-tratos vai além da punição. Exige educação, campanhas de conscientização, fortalecimento dos canais de denúncia, proteção aos animais comunitários e capacitação permanente de agentes públicos para lidar com esse tipo de situação de forma técnica e responsável.
Casos como os de Orelha e Negão não podem ser tratados como episódios isolados ou esquecidos com o passar dos dias. Eles representam um alerta claro de que a proteção animal precisa ocupar um espaço definitivo na agenda pública. O modo como uma sociedade trata seus animais diz muito sobre seus valores, seu senso de justiça e seu compromisso com a vida.
Artigo: Repórter Kaique Santos

















