Em minhas pesquisas e provocações intelectuais, durante uma conversa com um amigo militar do Exército Brasileiro que me solicitou apoio em alguns dados referentes ao General Osório, deparei-me com um fato que muito me chamou a atenção: o lendário militar também teve passagem por São Borja.
Para quem aprecia a história militar, e especialmente para quem veste a farda, a importância de Manuel Luís Osório é incontestável. Patrono da Arma de Cavalaria do Exército Brasileiro, Osório é considerado por muitos um dos maiores militares que o Brasil já teve. Seus feitos e sua trajetória de vida continuam sendo lembrados até hoje.
Destacou-se especialmente na Guerra do Paraguai, deixando enorme contribuição para o Exército Brasileiro. Há inclusive quem sustente que ele deveria ser o verdadeiro patrono do Exército, pois sua atuação em combate foi tão ou mais destacada que a do Duque de Caxias. Contudo, como muitas vezes ocorre na vida humana, também enfrentou rivalidades e certo ciúme por parte de alguns companheiros de farda.
O principal teatro militar da vida de Osório foi o Rio Grande do Sul. Nasceu em uma estância que hoje deu origem ao município de Osório. Cresceu solto pelas coxilhas, o “piazito” íntimo do laço e da boleadeira, habituado desde cedo às lides campeiras. Derrubava potros e terneiros com destreza, era ginete aprumado e nadador tornando-se um jovem robusto e saudável.
Seu pai, Tenente-Coronel Manoel da Silva Borges, integrava as fileiras da Legião de São Paulo. Ainda jovem, Osório acompanhou o pai em campanhas militares, auxiliando no trato das montarias, nos arreamentos, na forragem e nas tarefas do acampamento — armando e desarmando barracas quando possível, embora muitas vezes dormissem ao relento.
Participou do teatro de operações da Campanha Cisplatina, ainda como alferes. Naquele tempo, o cavalo era o verdadeiro companheiro desses guerreiros na defesa da pátria, e Osório, homem de origem campeira, combatia sempre montado na proteção de nossas fronteiras.
Também participou da Revolução Farroupilha. Embora fosse militar do Império, inicialmente demonstrou certa simpatia pelo movimento. Isso se devia, primeiro, à coincidência com os ideais do Partido Liberal e, segundo, à influência do ideário maçônico que circulava entre muitos líderes da época. Chegou inclusive a manter diálogo com lideranças farroupilhas.
Apesar da juventude, sua fama já corria pelos campos do sul. Era reconhecido pela coragem e pela experiência adquirida em combate. Durante a Revolução Farroupilha, o próprio Duque de Caxias utilizou Osório como interlocutor em negociações de paz com os revolucionários, muito em razão de ele ser gaúcho e conhecer bem os líderes farroupilhas. Osório destacou-se nesse papel, mostrando habilidade política e grande carisma, aproximando os revolucionários do comandante imperial.
Mas suas campanhas não pararam por aí. Participou também das operações contra Oribe e Rosas, nos conflitos do Prata. Após essa campanha, Caxias teria enviado uma mensagem famosa:
“Transmitam um abraço ao nosso Osório, o maior guasca da província e quem mais conquistou louros em Morón.”
Depois dessas campanhas, regressou ao Rio Grande do Sul. Por onde passava era aclamado: entoavam-se canções de guerra e celebrava-se a bravura do general. Seu prestígio era tamanho que frequentemente era procurado por lideranças políticas que buscavam interceder junto ao governo central.
No entanto, sua forma direta e popular de liderança também despertava intrigas. Acabou sendo exonerado de um comando e designado para assumir a fronteira das Missões, oficialmente para prevenir possíveis imprudências paraguaias — que mais tarde culminariam na invasão do Paraguai — e também para vigiar áreas habitadas por grupos indígenas ainda em disputa entre interesses brasileiros e argentinos.
Essas explicações oficiais não convenceram a todos. Muitos viam nessa transferência apenas resultado da inveja provocada pelo prestígio de Osório, conforme a biografia de Osório.
Mesmo assim, seguiu firme para São Borja, acompanhado por um pequeno destacamento. Conta-se que, certa manhã, surgiu nas coxilhas da entrada da cidade a figura imponente daquele que seria conhecido como um Centauro dos Pampas. Vinha dos lados de Itaqui, com as botas enlameadas pela longa marcha.
Reconhecido por seus feitos heroicos, foi recebido com entusiasmo pela população de São Borja. Passava lentamente pelas ruas com seus homens, enquanto o povo o saudava com admiração. Pouco tempo depois, chegaria também o restante de sua tropa, com os cavalos batendo cascos no chão avermelhado da terra missioneira. Parecia que Osório jamais conseguiria viver longe de seus comandados, tamanha era sua ligação com os homens da tropa.
Sua vida militar teria ainda grande destaque na Guerra do Paraguai, consolidando definitivamente sua reputação como um dos maiores chefes militares do país. Posteriormente, também se destacaria na vida política. Mas há um episódio curioso de sua passagem por São Borja, registrado no livro Lendas, Crendices e Mistérios de São Borja, do escritor José Nelson Corrêa.
Segundo relatos da época, quando Osório comandava a fronteira e residia em São Borja, recebeu ordem do governador da província, General Patrício José Correia da Câmara, para investigar a chamada lenda das Vacas Brancas. A tradição indígena falava de um grande campo no Alto Uruguai onde existiria um rebanho de gado branco vivendo em meio a matas fechadas.
Foi organizada então uma expedição para reconhecer a região. No lugar das lendárias vacas brancas, encontraram extensos ervais cultivados pelos indígenas. O local ficou conhecido como Cerro Pelado, área que hoje integra o município de Guarani das Missões.
Osório comunicou oficialmente a descoberta ao governo provincial. Posteriormente, em reconhecimento aos seus serviços, recebeu o título de Visconde do Herval, conforme registros publicados em revistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro na década de 1850.
A vida de Osório permanece viva na memória nacional, narrada em livros, cantada em versos e lembrada pela tradição militar. Mas aqui cabe destacar um fato que muito nos honra: essa grande figura da história do Exército Brasileiro teve morada em São Borja.
Portanto, o Marquês do Herval, patrono da Cavalaria, também fez parte da história desta terra missioneira.

Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

















