A Polícia Federal, no âmbito da Operação Sem Desconto, apura, desde o ano passado, desvios bilionários em aposentadorias e pensões do INSS. Ao longo da investigação, a PF encontrou menções ao nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os investigadores da Polícia Federal ressaltam que, até o momento, as referências partiram de terceiros. Não há, nesta fase, prova de participação direta ou assinatura de Lulinha nos atos ilícitos do inquérito. O filho do presidente não é investigado formalmente nem foi alvo direto de operações.
Mensagens interceptadas
A Polícia Federal encontrou mensagens entre o Antônio Carlos Camilo Antunes — o Careca do INSS — e a empresária Roberta Luchsinger em que mencionam repasses para o “filho do rapaz”, que a PF suspeita ser uma referência a Fábio Luís. Além disso, a PF apreendeu um envelope com a empresária onde estava o nome dele para receber a encomenda durante uma fase da operação ao cumprir um mandado de busca e apreensão. Roberta é amiga do filho de Lula e mantinha relações pessoais e de negócios com o Careca e outras pessoas ligadas a ele. A empresária nega irregularidades.
A empresa de Luchsinger (RL Consultoria) recebeu R$ 1,5 milhão (em cinco parcelas de R$ 300 mil) da empresa do Careca (Brasília Consultoria). Os pagamentos de R$ 300 mil mensais seriam, segundo apuração preliminar, pagamentos para Lulinha.
Em diálogos interceptados pela PF em dezembro do ano passado, Roberta alerta o Careca sobre a apreensão do envelope com o nome de Lulinha e o orienta a “sumir” com aparelhos celulares.
Segundo o depoimento de uma testemunha, a relação financeira não visava as fraudes no INSS diretamente, mas sim o tráfico de influência. Lulinha teria sido acionado para fazer lobby junto ao Ministério da Saúde em favor da empresa World Cannabis (do Careca).
O Careca chegou a ser recebido no Ministério no início de 2025, mas nenhum contrato foi assinado antes da deflagração da Operação Sem Desconto.
Embate na CPI do INSS
Em dezembro, a CPI do INSS rejeitou uma convocação de Lulinha. Na ocasião, o presidente da CPI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), chegou a afirmar que o filho de Lula teria sido contratado para atuar como uma espécie de lobista em favor de Antunes.
À época, a senadora Eliziane Gama (PSD-MA) afirmou que os pedidos de convocação estavam baseados em narrativas políticas e que não havia “nenhuma prova documental” ou indícios que conectem Lulinha ao Careca do INSS.
Quebra de sigilo
Em fevereiro, em uma nova ofensiva da oposição, a CPI do INSS aprovou, numa sessão tumultuada, a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís para rastrear possíveis repasses diretos ou indiretos vindos das associações de fachada geridas pelo “Careca”.
No dia 5 de março, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu a quebra dos sigilos bancários e fiscal do filho do presidente. A decisão foi uma extensão da medida tomada um dia antes, quando o magistrado acatou o pedido de anulação feito pela empresária Roberta Luchsinger, amiga do filho do presidente Lula.Na sexta-feira passada, o ministro Gilmar Mendes, decano do STF, pediu um destaque no julgamento sobre a quebra de sigilos do filho do presidente Lula.
Com o pedido de Gilmar, a análise do caso é retirada do plenário virtual e será realizada pelo plenário físico da Corte em uma data ainda não definida.
A defesa de Lulinha tenta anular a decisão da CPI, argumentando falta de fundamentação técnica e perseguição política, enquanto a comissão afirma que os indícios de transações financeiras atípicas justificam a medida.
Movimentações financeiras
Conforme reportagem do jornal O Globo, publicada no início do mês, Fábio Luís Lula da Silva movimentou R$ 19,5 milhões em quatro anos. Os valores constam da quebra de sigilo aprovada pela CPI do INSS de Lulinha e se referem a débitos e créditos em uma conta no Banco do Brasil entre 3 de janeiro de 2022 e 30 de janeiro deste ano.
Viagem internacional
Na última segunda-feira, a defesa de Fábio Luís admitiu, em petição enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), que o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes (o Careca do INSS) custeou passagens aéreas e despesas de uma viagem de Lulinha a Portugal.
Os advogados sustentam que o pagamento não configura crime, alegando que se tratou de uma cortesia baseada em uma relação de amizade de longa data entre ambos, sem contrapartida de benefícios públicos.
A PF apura se os valores utilizados para o pagamento dessas despesas têm origem nos desvios bilionários do INSS.
Mudança para o Exterior
Relatórios da Polícia Federal apontaram preocupação com a movimentação logística de Fábio Luís para o Exterior. Os investigadores registraram no inquérito que a saída do país poderia configurar uma tentativa de “evasão” para evitar o alcance das medidas judiciais em curso no âmbito da investigação sobre as fraudes previdenciárias.
Lulinha se mudou para Madri, capital da Espanha, no ano passado, antes da deflagração da operação da PF. A mudança foi planejada para trabalhar na área de tecnologia.
Quem é Fábio Luis Lula da Silva
Nascido em São Bernardo do Campo (SP), Fábio Luís, 51 anos, é o primogênito de Lula com a ex-primeira-dama Marisa Letícia e integra o grupo de cinco filhos do presidente. Formado em Ciências Biológicas pela Universidade Paulista (Unip), iniciou a vida profissional longe do empresariado.
Um de seus primeiros trabalhos foi como monitor no Zoológico de São Paulo, função exercida antes de ganhar notoriedade pública. A mudança de trajetória ocorreu no início dos anos 2000, quando passou a atuar como empresário.
Nesse período, seu nome ficou associado à Gamecorp, empresa de conteúdo multimídia que posteriormente adotou o nome G4 Entretenimento. A companhia chegou a operar a PlayTV, canal de TV por assinatura voltado ao público jovem e ao universo dos games, que teve entre parceiros e patrocinadores empresas como Itaú e Samsung e chegou a liderar o Ibope em seu segmento.
O crescimento da empresa, impulsionado por aportes relevantes de grupos de telecomunicações, especialmente a Telemar/Oi, colocou o filho do presidente no centro de questionamentos que se arrastaram por anos.
No âmbito da Operação Lava-Jato, Fábio Luís foi investigado sob suspeita de recebimento de repasses irregulares. Contudo, em 2022, a Justiça Federal de São Paulo determinou o arquivamento das investigações relacionadas à Gamecorp, seguindo decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que anulou as provas colhidas pela força-tarefa de Curitiba por incompetência de foro.
Fonte: GZH


















