Ao longo de mais de 400 anos das incursões jesuíticas em terras do atual Rio Grande do Sul, cabe destacar o momento inicial em que o Padre Roque González de Santa Cruz cruzou o rio Uruguai e lançou as bases da primeira redução em território rio-grandense.
Antes disso, já consolidado com a fundação de Santo Inácio Guazú, o Padre Roque alimentava o sonho de expandir a ação missioneira, explorando as margens do rio Paraná e, posteriormente, avançando em direção ao atual território gaúcho. Dotado de espírito ardente e vocação evangelizadora, planejou por anos essas incursões.
Em 25 de outubro de 1619, acompanhado por indígenas já catequizados, encontrou uma elevação graciosa onde decidiu fundar uma nova redução: Conceição, hoje situada na província de Misiones, na Argentina.
Entretanto, o grande desafio ainda persistia: a travessia do rio Uruguai em direção à sua margem esquerda. Esse feito somente se concretizaria cerca de sete anos depois.
Assim, entre o final de abril e os primeiros dias de maio de 1626, o Padre Roque finalmente cruzou o rio Uruguai, sendo bem recebido pelos guaranis que habitavam o território rio-grandense. Esse acolhimento permitiu-lhe fixar morada entre eles e iniciar a formação da primeira redução no atual Rio Grande do Sul: São Nicolau do Piratini.
Esse episódio é relatado em uma “carta ânua” do padre provincial Nicolau Mastrilli Durán, datada de 12 de novembro de 1628. Segundo o documento, ao atravessar o rio, o Padre Roque percorreu cerca de sete léguas desde a redução de Conceição, ergueu uma cruz e celebrou a primeira missa, reunindo rapidamente grande número de indígenas.
Na mesma carta, destaca-se que os indígenas enfrentavam uma fome severa — situação nunca antes presenciada pelo missionário. Ainda assim, o Padre Roque descreveu a terra como fértil e extremamente propícia à formação de uma grande povoação, mencionando que cerca de 500 famílias chegaram a se reunir na redução.
O nome São Nicolau foi dado em homenagem ao seu superior e amigo em Cristo, o Padre Nicolau Mastrilli Durán.
Importa ressaltar que essas incursões de Padre Roque González contavam com autorização do governo espanhol. Em viagem a Buenos Aires, recebeu um ofício que lhe concedia amplas faculdades, em nome da Coroa, para fundar reduções conforme julgasse adequado. Tal documento reforça a legitimidade da presença jesuítica na região, contrapondo interpretações que classificam os jesuítas espanhóis dos séculos XVII e XVIII como intrusos no território rio-grandense.
Por fim, é imprescindível reconhecer a importância da ação jesuítica e da preservação dos monumentos e ruínas missioneiras verdadeiras relíquias de um passado memorável. Esse passado, profundamente ligado à civilização indígena e à atuação missioneira, contribuiu de forma decisiva para a formação cultural do Rio Grande do Sul.
Isaac Carmo Cardozo é Tenente da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.


















