Ex-secretária do Bem-Estar Animal de Canoas investigada por mortes de cães e gatos é presa por estelionato

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Foto: Reprodução / GZH

Ex-secretária do Bem-Estar Animal de Canoas, Paula Lopes foi presa na manhã desta segunda-feira (15) em Porto Alegre. A Polícia Civil entende que ela praticou maus-tratos, estelionato, associação criminosa e quebra de sigilo funcional. Dois veterinários também foram presos.

Paula é investigada por ordenar mortes em massa de cães e gatos resgatados por meio de eutanásia. Além disso, é suspeita de criar campanhas de arrecadação para auxiliar nos tratamentos, enquanto pedia para veterinários sacrificarem os animais.

— Saiu o laudo do IGP (Instituto-Geral de Perícias) que comprova que as eutanásias não foram feitas desnecessariamente. O laudo comprovou isso — afirmou Paula ao chegar na delegacia.

A ex-secretária refere-se ao resultado da primeira fase da Operação Carrasco, realizada em setembro do ano passado. À época, o IGP analisou parte dos restos mortais de animais eutanasiados a mando da secretaria. Foram 487 eutanásias em sete meses. Paula também foi questionada pela reportagem de Zero Hora se usava os cães resgatados para receber fundos e negou.

Inicialmente, a investigação apontou que ela optava pela morte dos animais doentes que chegavam à secretaria sem avaliar possibilidade de tratamento, com o objetivo de reduzir custos e aumentar números de atendimentos. A eutanásia em animais é aceita, desde que com autorização técnica e avaliação de que é a melhor alternativa para diminuir o sofrimento do animal.

Nos meses seguintes, a polícia identificou que Paula agia da mesma maneira em sua ONG, o Instituto Paula Lopes. Nesses casos, tutores e protetores levavam animais doentes à organização com a expectativa de que recebessem tratamento. 

Conforme a investigação, Paula tinha uma rede de contatos com clínicas veterinárias, levava os cães e gatos para esses locais e pedia para que os veterinários praticassem eutanásia, muitas vezes sem comprovar o diagnóstico da doença.

— Ficou comprovado com os elementos de prova que nós trouxemos agora que muitos animais que tinham tratamento, tinham doenças tratáveis, eram eutanasiados justamente para que não houvesse um gasto com esses tratamentos — afirma a delegada Luciane Bertoletti, titular da 3ª Delegacia de Polícia de Canoas e responsável pela investigação.

A novidade em relação à primeira fase da operação é que foram identificados indícios de estelionato.

— Enquanto secretária, nós não conseguimos comprovar que tinha algum interesse financeiro direto, mas como protetora, sim. O que restou demonstrado é que, por meio das redes sociais, a investigada lançava campanhas de ajuda, de solicitação de dinheiro para tratamento de alguns bichos, enganando as pessoas porque logo em seguida esses bichos não eram tratados mas, sim, eram eutanasiados pelos veterinários a mando dela —  complementa.

O Ministério Público (MP) informou que a denúncia deve ser entregue à Justiça em até cinco dias.

“Ela nunca parou”

A polícia não conseguiu identificar quantos animais foram sacrificados nem o valor apropriado pela investigada, já que a sua atuação no Instituto Paula Lopes ocorre desde 2018. Durante o período analisado pela polícia, no primeiro semestre de 2025, foram identificados 20 casos. Muitos deles ocorreram enquanto ela trabalhava como secretária em Canoas, mesmo que sem relação com o cargo público. Paula pediu exoneração da pasta em julho do ano passado.

Paula já havia sido indiciada por maus-tratos em outubro. As novas provas estão sendo incluídas no inquérito. O Ministério Público, que até então não havia se manifestado, deve formalizar uma denúncia ao poder judiciário. Se aceita, ela se tornará ré na Justiça. Mesmo assim, Paula segue ativa na sua ONG e buscando campanhas para financiar tratamentos de animais.

— Ela nunca parou. Desde a nossa operação no ano passado, ela nunca parou com as campanhas nas redes sociais, continua angariando fundos e doações para custear supostos tratamentos de animais doentes —  conclui a delegada.

Outros investigados

Um dos alvos da investigação é uma servidora pública suspeita de repassar informações sigilosas a Paula. A polícia não informou o cargo da investigada, mas a reportagem apurou que se trata de uma policial civil. Uma das suspeitas é de que ela modificaria boletins de ocorrência para manter animais na posse da ex-secretária.

Além da ex-secretária, foram presos dois médicos veterinários que atuaram diretamente com ela e praticavam eutanásias ordenadas por Paula. Eles deverão responder por maus-tratos e associação criminosa.

Zero Hora apurou que uma delas é Tainara Hart. Ela foi responsável técnica da Secretaria do Bem-Estar Animal de Canoas e já estava na condição de investigada na primeira fase da operação.

— Isso é mais ultrajante ainda, alguém com o poder público, com a fé pública atuando de forma criminosa, assessorando e apoiando esse tipo de prática — afirma o delegado Cristiano Reschke, diretor da 2ª Delegacia Regional Metropolitana.

Procurado pela reportagem, o advogado de Tainara afirmou não teve acesso aos conteúdos da investigação e não vai se manifestar por enquanto.

O outro alvo é o veterinário Marcos Vinicius Jenisch. Em depoimento à Polícia Civil, ele afirmou que Paula escolhia animais com tratamentos muito caros para fazer divulgação e campanhas de arrecadação nas redes sociais. Ele nega que tenha sacrificado animais sem comprovação técnica. 

O Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV) informou que vai pedir a polícia o conteúdo da investigação para poder instaurar uma sindicância interna contra os veterinários presos. Segundo a instituição, um deles já tinha procedimento aberto, que ainda está em andamento.

São cumpridos ainda 10 mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos alvos e também nas clínicas para onde Paula levava os animais resgatados. A ação contou com o apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), do Ministério da Justiça. 

Para Reschke, casos como esse acendem o alerta sobre campanhas em redes sociais, que devem ser tratadas com cautela por quem age de boa fé.

— A partir do momento em que as pessoas tomarem algum conhecimento de que possa estar havendo a prática criminosa, seja por trás de causas animais ou em razão de outras causas, traga essa informação, seja por meio de denúncia anônima, um registro de ocorrência, mas procure a Polícia Civil — orienta o delegado.

Cão resgatado

A polícia resgatou um cachorro que estava na casa de Paula quando cumpriu o mandado de prisão. O animal chamado Dudu não tem as duas patas dianteiras e apresenta sinais de maus-tratos, segundo a polícia. Nas últimas semanas, a titular da ONG realizou campanhas de arrecadação de recursos para auxiliar no tratamento do cachorro.

Fonte: GZH

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