Pouco depois das 5h30min deste sábado, o silêncio habitual de bairros e assentamentos de Eldorado do Sul foi substituído pelo som de telhas sendo arrancadas, árvores tombando e pedras de granizo atingindo casas. Em cerca de 20 minutos, o temporal que castigou o município deixou mais de 400 pessoas desalojadas, centenas de imóveis danificados e localidades inteiras tentando entender o tamanho dos prejuízos.
Enquanto equipes da Defesa Civil percorriam as ruas distribuindo lonas e prestando auxílio às famílias, moradores iniciavam uma força-tarefa para salvar o que restou e tentar recomeçar.
Na rua Sesmaria dos Farrapos, no bairro Parque Eldorado, o empresário Anderson Gonçalves, de 59 anos, ainda observava os estragos provocados por uma enorme árvore que caiu sobre a via, derrubando postes e interrompendo completamente o trânsito. Ao redor, vizinhos e equipes da Defesa Civil trabalhavam com motosserras para liberar a passagem.
Estragos do temporal em Eldorado do Sul. | Foto: Fabiano do Amaral
Dentro da residência, o prejuízo também foi significativo. O telhado não resistiu, a água invadiu os cômodos e as placas solares instaladas há pouco mais de um ano foram destruídas. “Parecia que estava caindo um avião. Foi muito forte. Foi feia a coisa, mas tem gente que perdeu a casa toda”, relata.
A esposa dele, a fonoaudióloga Ana Paula Vacaro, afirma que a família já havia enfrentado outros temporais, mas nunca algo semelhante. “Estamos acostumados a ter ventos fortes, mas desse jeito eu nunca tinha visto”, afirma.
“Foi um filme de terror”
Estragos do temporal em Eldorado do Sul. | Foto: Fabiano do Amaral
Na rua Alto Alegre, também no Parque Eldorado, o comerciante Claudionir Goulart de Souza, de 62 anos, contabilizava perdas que atingiram praticamente toda a sua fonte de renda.
O mercado que mantém há 18 anos, uma loja de roupas e sua residencia foram destelhados. O pavilhão em que era mantida uma cancha de bocha foi totalmente destruído pela força dos ventos.
O investimento mais recente, um sistema de energia solar que custou mais de R$ 100 mil, também foi destruído. “Foi um filme de terror”, resume.
Sem seguro, ele conta que lhe resta trabalhar para reorganizar a vida. “Agora é botar os pés no chão, levantar a cabeça e conseguir tudo de novo. Não tem o que fazer”, diz.
Durante a manhã deste sábado, dezenas de vizinhos ajudavam a retirar telhas, recolher estruturas metálicas e proteger mercadorias da chuva. “A gente mora aqui há 28 anos, fiz muitas amizades, e essa ajuda está sendo muito importante agora”, finaliza.
“Perdemos tudo”
Assentamento Apolônio Carvalho | Foto: Fabiano do Amaral
Já no assentamento Apolônio de Carvalho, a casa de madeira onde vive o agricultor Odacir dos Santos, de 43 anos, simplesmente não resistiu e causou um prejuízo que ainda está longe de ser contabilizado.
Acostumado com temporais, ele conta que nunca imaginou presenciar uma destruição daquela dimensão. “Começou com aqueles tufões de vento. A gente já tinha passado por outros temporais, mas nunca tinha acontecido nada. Dessa vez, a gente perdeu tudo”, lamenta.
Segundo ele, os estalos das telhas foram o primeiro sinal de que algo estava diferente. “Só deu tempo de abrir a porta para que todos saíssem. O telhado caiu todo”, conta.
Na residência moravam Odacir, quatro filhos e o sogro, que é acamado. Em meio ao desespero, a prioridade foi retirar todos em segurança. Uma filha sofreu escoriações durante a fuga e precisou ser levada ao pronto-socorro, mas sem maior gravidade.
Com a casa destruída, alimentos precisaram ser transferidos para a residência de vizinhos, que disponibilizaram um pequeno gerador para evitar que estragassem.
Apesar da perda praticamente total dos bens, Odacir procura manter o otimismo. “Perdemos tudo que tinha ali, mas os bens materiais a gente busca de novo. O importante é que todo mundo saiu com vida”, completa.
Ao longo deste sábado, a prefeitura confirmou que irá decretar situação de emergência no município. Segundo a Defesa Civil, os bairros Parque Eldorado e Apolônio de Carvalho concentraram os maiores danos, com centenas de residências atingidas, além de árvores caídas, interrupções no fornecimento de energia elétrica e famílias acolhidas em abrigos e casas de parentes enquanto aguardam o início da reconstrução.
Fonte: Correio do Povo


















