O que seria uma viagem de fé e agradecimento terminou em frustraçãopara um grupo de mais de 30 fiéis da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no bairro Harmonia, em Canoas, na Região Metropolitana.
Após mais de um ano de planejamento e pagamentos feitos a uma empresa de viagens, os dois ônibus que levariam os romeiros ao Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, não apareceram no local marcado para o embarque na segunda-feira (27).
Sem aviso prévio, informações sobre o possível cancelamento da viagem ou retornos da empresa aos clientes, osromeiros afirmam ter sido vítimas de um golpe.
— Estamos muito abalados. Fomos enganados. Ficaram com o nosso dinheiro. Muitos estavam indo para cumprir ou agradecer promessas, todos devotos de Nossa Senhora Aparecida. Muito triste tudo isso, e estamos indignados com a falta de retorno da empresa — relata Katia Dorneles, 58 anos, que comprou um pacote de viagem em dezembro do ano passado.
Na segunda-feira, 34 integrantes do grupo registraram um boletim de ocorrência (BO) na 1ª Delegacia de Polícia (DP) de Canoas. Agora, a Polícia Civil investiga o caso e apura a suspeita de estelionato (veja como está a investigação abaixo).
Zero Hora apurou que a empresa envolvida é a JPF Turismo Religioso, que tem sede em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos. A reportagem tentou contato com a empresa por telefone e mensagens. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.
A viagem
Segundo o Frei Juan Miguel Gutiérrez Mendéz, diretor espiritual da paróquia afetada, a romaria começou a ser organizada em junho de 2025. Para muitos participantes, a viagem representava uma forma de agradecer pela vida após a enchente que atingiu o Estado em 2024.
A paróquia Sagrado Coração de Jesus fica em uma das regiões mais impactada pela cheia em Canoas. Durante a tragédia climática, o prédio registrou água até no segundo andar, com mais de 3m40cm de alagamento, por quase um mês.
Da mesma forma, as famílias que integram a congregação também registraram perdas e estragos, sobretudo nas residências. Mesmo assim, de acordo com o religioso, dentro do grupo da viagem havia famílias que fizeram esforço financeiro para participar da peregrinação, economizando por meses para pagar os pacotes de viagem.
— Eles exploraram a fé das pessoas. É muito triste, muitas pessoas estão sofrendo. Nós começamos a pensar nessa viagem para Aparecida para agradecer porque Deus nos deixou a vida. Nós fomos muito impactados pela enchente de 2024. Todos os fiéis perderam tudo, ainda estão reconstruindo suas casas. Muitos queriam agradecer pelos pedidos atendidos — afirmou o frei.
Além da congregação de Canoas, romeiros de Bagé e Porto Alegre também participariam da viagem. Ao todo, o frei diz que cerca de cem pessoas tinham pago pela viagem — estima-se que o prejuízo seria de cerca de R$ 149 mil, visto que os pacotes custavam em média R$ 1.490. O número de vítimas ainda é apurado pela Polícia Civil.
— O dinheiro é importante, mas o mais difícil foi ver a decepção das pessoas que depositaram confiança nesse projeto — acrescenta o frei.
Sinais de alerta
De acordo com o religioso, os primeiros indícios de problema com a empresa envolvida começaram a surgir meses antes do embarque.
Em abril, o contato com a empresacomeçou a ficar difícil. As mensagens enviadas passaram a receber respostas automáticas informando que a agência estava em reforma.
Preocupado com a situação, o frei foi até o endereço da empresa, em Novo Hamburgo, mas encontrou o local fechado. Após buscar mais informações, foi informado pela empresa de que a sede havia mudado de endereço.
Com a promessa de que a viagem aconteceria, o grupo seguiu esperando que a empresa cumprisse o contrato.
Investigação
A Polícia Civil confirmou que uma investigação sobre o caso está em andamento na 1ª Delegacia de Polícia (DP) de Canoas. Conforme o delegado Marco Guns, a apuração está em fase inicial e busca entender se houve o crime de estelionato.
Estão sendo reunidos documentos, comprovantes de pagamento e depoimentos para esclarecer as circunstâncias do caso. O caso também envolve outras entidades como o Procon, onde reclamações também foram registradas.
Outras investigação similares correm na 1ª DP de Novo Hamburgo, onde vítimas abriram ocorrências relatando prejuízos após tentativas de viagem com a mesma empresa.
Segundo o delegado Tarcísio Lobato Kaltbach, titular da DP, inicialmente cinco investigações sobre o caso foram abertas, sendo que uma delas resultou em uma negociação entre as partes. Quatro vítimas foram ressarcidas. O procedimento foi encaminhado ao fórum da cidade para a homologação do juiz. As outras ocorrências seguem em investigação.
Estima-se que oito pessoas tenham sido lesadas em Novo Hamburgo.
Fonte: GZH


















