As duas inserções jesuíticas no Rio Grande do Sul: de São Nicolau a São Borja

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Foto: Reprodução

Volta e meia surgem dúvidas e discussões a respeito dos 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis, especialmente em relação à importância de cada uma das localidades que compõem o antigo território missioneiro. Com as comemorações dos 400 anos, iniciadas em referência à chegada dos jesuítas ao atual território do Rio Grande do Sul, algumas manifestações acabam concentrando a narrativa em São Nicolau, enquanto outras localidades, igualmente importantes para a história missioneira, parecem receber menor destaque.

Entretanto, para compreender corretamente essa história, é necessário estabelecer uma sequência cronológica e distinguir duas grandes fases da presença jesuítica no atual território gaúcho.
A primeira inserção jesuítica ocorreu a partir de 1626. Em 3 de maio de 1626, o padre Roque González de Santa Cruz atravessou o rio Uruguai e chegou à margem esquerda, ingressando no território que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul. Nesse contexto foi fundada a Redução de São Nicolau, considerada a primeira redução jesuítica estabelecida em solo rio-grandense.

Portanto, quando se fala nos 400 anos das Missões, o marco de 1626 está diretamente relacionado a essa primeira experiência missioneira no território gaúcho.
A partir de então, os jesuítas avançaram pelo território, procurando estabelecer novas reduções e ampliar o trabalho de catequese e organização dos povos Guarani. Em 1627, foi fundada São Francisco Xavier, seguida pela Candelária do Ibicuí, também em 1627.

Em 1628, surgiram novas reduções, entre elas Assunção do Ijuí, Candelária do Piratini e Caaró. Nesse mesmo contexto ocorreu o martírio dos padres Roque González de Santa Cruz e Afonso Rodríguez, em Caaró, e de João de Castilho, em Pirapó.

O processo de expansão continuou. Em 1631, foram fundadas Apóstolos e São Carlos. Em 1632, surgiram diversas outras reduções, entre elas São Tomé, São José, Santa Ana, Natividade, São Cosme e São Damião, Jesus-Maria e São Miguel. Em 1634, foram estabelecidas São Cristóvão, São Joaquim e Santa Teresa, completando o conjunto das principais reduções da primeira fase no território rio-grandense.

Essa primeira experiência missioneira, contudo, encontrou enormes dificuldades. A distância entre as reduções, os conflitos com diferentes grupos indígenas e, principalmente, os ataques dos bandeirantes paulistas, que buscavam capturar indígenas para escravização, comprometeram a continuidade desse projeto.

A partir da década de 1630, a situação tornou-se cada vez mais difícil. Os ataques bandeirantes provocaram o abandono progressivo das reduções e, entre o final da década de 1630 e o início da década de 1640, os jesuítas deixaram o território do atual Rio Grande do Sul, transferindo-se para a margem direita do rio Uruguai, em áreas que hoje pertencem à Argentina. Assim terminou a primeira fase missioneira.
Passariam, então, algumas décadas até que a Companhia de Jesus retornasse ao território rio-grandense.
É justamente nesse ponto que surge a importância de São Borja.

Na década de 1680, o contexto político e territorial havia se modificado. A expansão portuguesa em direção ao sul e a necessidade espanhola de fortalecer a fronteira fizeram com que os jesuítas retornassem à margem esquerda do rio Uruguai.

Em 1682, iniciou-se uma nova fase da presença missioneira no atual Rio Grande do Sul. E, diferentemente da primeira experiência, o ponto de partida foi São Francisco de Borja, fundada naquele ano e posteriormente conhecida simplesmente como São Borja. Ela foi a primeira redução da segunda fase missioneira e, por isso, é considerada o primeiro dos chamados Sete Povos das Missões.

A partir de São Borja, o sistema missioneiro foi novamente estruturado no território gaúcho, com as reduções sendo estabelecidas de maneira mais articulada e próximas umas das outras. Na sequência vieram São Nicolau, São Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio, formando o conjunto que passou à história como os Sete Povos das Missões.
Essa distinção é fundamental para compreender a história.

São Nicolau representa o início da primeira inserção jesuítica no atual Rio Grande do Sul, em 1626. São Borja representa o início da segunda inserção, em 1682, e é o primeiro dos Sete Povos das Missões.
Portanto, não existe contradição entre afirmar que São Nicolau é a primeira redução jesuítica do Rio Grande do Sul e que São Borja é o primeiro dos Sete Povos das Missões. São acontecimentos pertencentes a duas fases históricas distintas.

É justamente essa perspectiva que ajuda a compreender as discussões em torno das comemorações dos 400 anos. O ano de 1626 marca a chegada de Roque González e o início da primeira experiência de implantação das reduções jesuíticas em solo rio-grandense, tendo São Nicolau como marco inaugural. Já o ano de 1682 marca o retorno da Companhia de Jesus ao território e o início da segunda fase, a partir de São Borja, dando origem ao sistema dos Sete Povos.

Assim, a história missioneira do Rio Grande do Sul não começa em São Borja, mas também não termina em São Nicolau. São Nicolau representa o primeiro capítulo; São Borja inaugura um novo capítulo.
Ao compreender essa sequência — 1626, São Nicolau; 1627 e 1628, expansão das primeiras reduções; 1631 a 1634, ampliação da primeira fase; década de 1630, avanço dos bandeirantes e abandono; 1682, retorno dos jesuítas com São Borja; e, posteriormente, formação dos Sete Povos — torna-se possível perceber que as Missões Jesuítico-Guaranis constituem um processo histórico muito mais amplo do que a história de uma única localidade.

Por isso, ao celebrarmos os 400 anos das Missões, é importante reconhecer São Nicolau como o marco da primeira inserção jesuítica no atual território gaúcho, sem esquecer que, décadas depois, São Borja foi a porta de entrada da segunda fase missioneira e o primeiro dos Sete Povos das Missões.

Essa continuidade histórica revela que São Nicolau e São Borja não disputam a primazia da história missioneira. Ao contrário: são dois marcos diferentes de uma mesma trajetória histórica, separados por mais de meio século, mas unidos pela presença da Companhia de Jesus, pelos povos Guarani e pela formação de uma das experiências culturais mais marcantes da história do sul do continente.

Fonte: Site SB News

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