Você está amarrado? (ou sobre se fazer de surdo)

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Foto: Reprodução

Em alusão ao 27 de agosto, dia do Psicólogo.

O filme de Nolan ‘A Odisseia’ (2026) é um aviso para o fim de uma civilização, da queda de uma cultura em seu ‘bem viver’ e antropologicamente sobre a transgressão de um interdito divino. Conhece aquele ditado popular: “no amor e na guerra vale tudo”. Aos desavisados, pois até Odisseu recebeu avisos, a jornada deste é sobre punição, penitência, expiação, culpa e redenção. A tragédia grega é mais sobre sofrimento do que glórias, ou no mínimo a conquista de um em função do outro.

O diálogo entre Odisseu e Penélope ao final deve serescutado com muita atenção, pois precisamos ser estranhos, desconhecidos uns aos outros para confessarmos! Há um estranho conforto estarmos diante de alguém que não pode nos julgar. Alguém que possa nos escutar como o viajante que somos nessa “tragédia” que se chama vida devido os tormentos íntimos que carregamos.

Nesse dia 27 de agosto comemora-se o dia do Psicólogo, e a escuta do psicólogo em seu fazer, no que tange à minha experiência, a escuta clínica é um lugar por excelência dessa posição de estranhamento. O Psicanalista e o Paciente são estranhos um ao outro e, é justamente essa condição de serem estranhos mutuamente que é possível que o tratamento se realize. Não porquesimplesmente o psicólogo não vai julgar o paciente, mas sim porque este não sofrerá com tamanha resistência na hora de “exorcizar” seus “demônios”.

Nisso faço a articulação de Odisseu amarrado ao mastro do barco impossibilitado de atirar-se ao oceano com a posição do paciente em análise diante de seu psicanalista. Utilizo a alegoria da tragédia grega para você pensar em você mesmo(a)’ em sua própria análise, em seu próprio percurso analítico, tratamento. Você se amarra voluntariamente? Se reprime voluntariamente? Com inveja de quem não faz o mesmo? Ou se faz de surdo disciplinado, resoluto e inibido moralmente ao ponto de ficar neuroticamente incapaz ou imparável diante dos tormentos? Ou sua posição é essa de espectador, ironicamente poética assistindo a tudo isso como um psicólogo?!

Como provocação maior para vocês ressalto o que o Odisseu contou sobre o “canto das sereias ao seu companheiro de viagem que não pode ouvir, uma vezestando com os ouvidos tampados com cera de abelha por determinação de Odisseu na hora da travessia. Como era o canto das sereias, perguntou o “surdo”; “Era tudo aquilo que você um dia quis ser e, depois, tudo aquilo que passou a desejar nunca ter desejado. Era como uma coceira deliciosa: você quer se coçar, mas percebe que ela está por debaixo da pele, num lugar que não consegue alcançar. Então, o que parecia prazeroso se torna insuportável. O canto dizia que aquilo que você mais deseja é justamente o que não pode ter e, aquilo que mais deseja e não pode ter é o que um dia já teve e perdeu. Era uma canção feita de todas as promessas que eu não consegui cumprir. E dizia que, no fundo, eu não queria realmente voltar para casa.

O sublime, para mim, foi Odisseu e os seus guerreiros passando pelo canto das sereias, mas a brutalidade do diálogo entre Odisseu e Penélope, casados; cansados e sobretudo estranhos um ao outro é tão surpreendente quanto. Pois quando criamos os nossos próprios monstros só nos resta reconhecê-los. Por fim, descubram por vocês mesmos, ao longo do sofrimento de Odisseu, de sua jornada, quem são definitivamente os ameaçadores e brutais ‘povos do mar’ pois aí reside o âmago, não só da tragédia grega, mas da tragédia de cada um de nós.

A clínica é sempre uma odisseia em que cada paciente que sai pela porta enfrenta a sua própria jornadade retorno, nisso o psicanalista seria como Tirésias no mundo dos mortos, pois em certa medida o psicanalista está sempre meio morto. A clínica é um lugar de segredos do que foi, do que é e do que virá a ser. Essa é uma visão romântica, mas não menos imprecisa da ‘tragédia’ que é ‘gozar’ da vida.

Psicanalista; @fitz_psicanalista.

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