Estado enfrenta impactos de enchentes, secas e outros fenômenos climáticos e precisa avançar em prevenção, obras de proteção e gestão dos recursos hídricos
O Rio Grande do Sul enfrenta uma sequência de desafios ambientais relacionados à ocorrência cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos. Enchentes, estiagens, vendavais, deslizamentos e granizo têm provocado mortes, prejuízos econômicos e impactos na infraestrutura do Estado, aumentando a necessidade de investimentos em prevenção e medidas de adaptação.
Dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil, mantido pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, apontam que, somente na última década, os eventos extremos provocaram 281 mortes e aproximadamente R$ 116,8 bilhões em prejuízos públicos e privados no Rio Grande do Sul.
A situação ganha ainda mais atenção diante da previsão de um El Niño de forte intensidade. O fenômeno deve atingir seu nível máximo a partir de setembro, com efeitos mais significativos entre outubro e janeiro. Segundo especialistas, o aumento da temperatura das águas do Oceano Pacífico pode intensificar as chuvas na Região Sul e elevar os riscos de enchentes, deslizamentos e ventos fortes.
As enchentes de 2024 e do ano passado atingiram diretamente mais de um milhão de gaúchos. Entre os impactos provocados pelos temporais estão a paralisação do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, por quase seis meses, a destruição de pontes e a interrupção de rodovias.
Obras contra enchentes
Após a grande enchente de 2024, governos municipais, estadual e federal passaram a trabalhar em novos sistemas de proteção contra cheias. Os projetos contam com cerca de R$ 6,5 bilhões em investimentos da União.
Entre as principais iniciativas está o sistema de contenção de Eldorado do Sul, na Bacia do Jacuí, estimado em R$ 1,1 bilhão. O anteprojeto para a construção de diques já foi atualizado e concluído, mas as obras ainda não começaram. A próxima etapa será a elaboração do projeto executivo e, posteriormente, a autorização para o início dos trabalhos.
Também estão em andamento projetos para os sistemas de Porto Alegre e Alvorada, na região do Arroio Feijó, além das bacias dos rios Gravataí, Sinos e Caí.
A previsão é de que os novos sistemas de proteção sejam concluídos até 2031. Especialistas, porém, alertam que o cumprimento desse prazo dependerá da continuidade dos investimentos e do compromisso das próximas administrações públicas.
Enquanto as obras não são concluídas, moradores de áreas atingidas pelas cheias seguem adotando medidas próprias de proteção. Em Eldorado do Sul, por exemplo, há famílias que adaptaram imóveis e mantêm estruturas para facilitar a retirada de móveis e a evacuação em caso de novas inundações.
Planos de prevenção
Além das obras estruturais, especialistas defendem o fortalecimento das ações de prevenção. Um levantamento do Tribunal de Contas do Estado apontou anteriormente que 87 municípios gaúchos não possuíam planos de contingência, enquanto outros 215 tinham documentos desatualizados.
Segundo a Defesa Civil Estadual, atualmente os 497 municípios do Rio Grande do Sul possuem seus próprios planos. A avaliação de especialistas, no entanto, é de que esses documentos precisam ser revisados e aprimorados de forma permanente.
Outra iniciativa envolve a revisão dos planos diretores de municípios do Vale do Taquari. O objetivo é evitar a ocupação de áreas suscetíveis a inundações e outros desastres naturais.
Estiagens também provocam grandes perdas
Apesar dos impactos das enchentes recentes, as secas e estiagens continuam sendo um dos principais problemas ambientais do Estado. Dos últimos seis anos, apenas 2024 não registrou grandes prejuízos provocados pela falta de chuva.
Estimativas da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) apontam perdas de aproximadamente R$ 126,3 bilhões nas culturas de arroz, milho, soja e trigo entre 2020 e 2025. As quebras de safra também provocaram impactos indiretos na economia, com uma redução estimada de R$ 319 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) no período.
O Rio Grande do Sul está entre os Estados brasileiros com maior média de registros de estiagens e secas. As áreas mais afetadas também apresentam baixos índices de crescimento populacional, cenário que pode ser agravado pelos prejuízos econômicos provocados pela irregularidade das chuvas.
Gestão da água é outro desafio
A gestão dos recursos hídricos também aparece entre as principais necessidades do Estado. Especialistas defendem a ampliação da irrigação, a redução das perdas na distribuição de água, a melhoria da coleta e do tratamento de esgoto e o controle da utilização dos mananciais.
Atualmente, o Rio Grande do Sul possui 25 bacias hidrográficas. Dessas, 12 possuem planos de bacia concluídos, sete têm documentos parcialmente elaborados e seis ainda não contam com planos.
Outra preocupação é o desperdício na distribuição de água. Segundo os dados apresentados na reportagem, cerca de 39% da água produzida no Estado é perdida antes de chegar ao consumidor. Já a coleta de esgoto atende 34,7% da população gaúcha, percentual inferior à média nacional, de 56,7%.
Especialistas também defendem a criação de uma estrutura estadual específica para a gestão das águas, com atuação integrada entre diferentes municípios e bacias hidrográficas.
Prevenção precisa caminhar junto com obras
Para pesquisadores e especialistas, o enfrentamento dos problemas ambientais do Rio Grande do Sul depende da combinação entre grandes obras e medidas preventivas.
Além dos sistemas de contenção de cheias, estão entre as ações consideradas necessárias o mapeamento de áreas de risco, o monitoramento climático e hidrológico, o fortalecimento da cultura de prevenção e a integração entre órgãos públicos.
O Serviço Geológico do Brasil já realizou o mapeamento de áreas de risco em 134 municípios gaúchos. A ampliação desse trabalho pode auxiliar na elaboração de planos diretores e de contingência mais eficientes.
No combate às estiagens, uma das principais alternativas apontadas é a ampliação da irrigação. Atualmente, cerca de 12% da área plantada no Estado é irrigada, com concentração principalmente nas lavouras de arroz. Em culturas como soja e milho, mais vulneráveis à falta de chuva, o índice é inferior a 5%.
O desafio, portanto, é preparar o Estado para lidar tanto com o excesso quanto com a falta de água. Para especialistas, investimentos em infraestrutura, planejamento e prevenção serão fundamentais para reduzir os impactos dos próximos eventos climáticos extremos.
Fonte: SB News | Com informações do GZH


















