Coluna de Isaac Carmo – As Primitivas Reduções Jesuíticas

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Foto : Divulgação

Por Isaac Carmo

Como está sendo amplamente divulgado, neste ano completam-se 400 anos das Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul. As primitivas reduções jesuíticas fazem parte desse importante arcabouço histórico, e São Borja insere-se plenamente nesse contexto que alicerça a nossa identidade.

Precisamos, portanto, revelar e perpetuar, entre as gerações futuras, as glórias do nosso passado rio-grandense. Nós, gaúchos, patriotas e orgulhosos de nossas origens, temos o dever de resgatar a memória dos desbravadores de nossas matas e dos fundadores das reduções missioneiras. Entre eles, destacam-se os mártires Roque González de Santa Cruz, Cristóvão de Mendoza e outros destemidos por uma causa, como Antônio Ruiz de Montoya, Pedro Romero e Francisco Jiménez, os quais, com sangue e suor, fecundaram este generoso solo do sul da Pátria, merecendo, por isso, nossa eterna gratidão neste chão missioneiro.

Conforme o padre Luiz Gonzaga Jaeger, o idealizador das reduções, Roque González de Santa Cruz, nascido em Assunção, no Paraguai, no ano de 1576, teve uma juventude exemplar, dedicada às letras e à prática das virtudes. Abraçou o estado clerical e, após sua ordenação, partiu para o norte do Paraguai. Em 1609, ingressou na Companhia de Jesus de Inácio de Loyola.

Como noviço, enfrentou sua primeira missão junto aos ferozes Guaicurus. Após cumpri-la com êxito, foi designado para o sul da Província do Paraguai, em terras guaranis, onde se encontrava a redução de Santo Inácio Guaçu, recentemente fundada. Por estar mal situada, decidiu transferi-la para um local mais fértil e saudável, estabelecendo um modelo que serviria de padrão para outras fundações que deram origem aos famosos 30 povos missioneiros.

Cabe destacar que, conforme o padre Jaeger, o termo “redução”, nos séculos XVI e XVII, significava o agrupamento de indígenas que abandonavam sua vida isolada para se estabelecerem em povoado. Os espanhóis expressavam isso como “reducirse a cruz y campana”, enquanto os portugueses utilizavam o termo “aldear-se”.
A Companhia de Jesus utilizava, inicialmente, um método inspirado pelo apóstolo Francisco Solano, que consistia em visitas periódicas aos indígenas em seus redutos. Contudo, essas ações não eram contínuas e geravam instabilidade nas conversões.

Padre Roque, com visão inovadora, modificou energicamente esse método. Defendeu uma evangelização estável e permanente, incentivando os indígenas a abandonarem a vida errante e a se fixarem em um ponto central, sob a vigilância constante dos missionários. Essa mudança foi essencial para consolidar o modelo das reduções.
Para compreender esse sistema de fundação, é importante observar que, devido ao reduzido número de missionários, era necessário planejamento rigoroso. A escolha do local deveria considerar uma topografia adequada, terras férteis, boas condições higiênicas, abundância de madeira e acesso à água, garantindo conforto e sustentabilidade às comunidades guaranis.

A redução de Santo Inácio Guaçu, situada próxima ao rio Paraná, tornou-se o modelo ideal. Inicialmente, conquistou-se a confiança dos indígenas, que aceitaram a mudança em suas formas tradicionais de habitação. Passaram a viver em casas organizadas, amplas e bem distribuídas.
Padre Roque, com dedicação pessoal, chegou a participar diretamente da construção dessas moradias. Planejou a redução em nove quadras: uma destinada à praça central e as demais organizadas com barracões estruturados, divididos em compartimentos para abrigar as famílias indígenas.

Naturalmente, a construção mais importante era a Igreja, ao lado da qual se edificavam as moradias dos padres. Essas construções, inicialmente simples, evoluíam conforme os recursos disponíveis. Para isso, era essencial a abundância de madeira, especialmente o cedro, e materiais adequados para cobertura.

O modelo implantado por Padre Roque González consolidou-se como referência entre os guaranis e foi amplamente adotado pelos missionários da Companhia de Jesus. Sua organização social e estrutural tornou-se objeto de admiração e estudo, sendo considerada uma das experiências mais marcantes da história missioneira no sul do continente.

Isaac Carmo Cardozo é Tenente da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

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