Coluna de Isaac Carmo – Faca: A Jóia do Gaúcho

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Foto: Isaac Cardozo

Por: Isaac  Carmo Cardozo – Colunista

O gaúcho não está completo quando lhe falta uma faca na guaiaca. Esse apetrecho, parte inseparável do homem campeiro, sempre lhe serviu de grande utilidade: tanto na “lida bruta”, para safar-se dos perigos e cortar os laços que a vida apresenta, quanto para simples tarefas do dia a dia, como descascar uma laranja. Podemos dizer, sem exagero, que gaúcho sem faca não é gaúcho completo.

Foto: Isaac Cardozo

Ao iniciar uma coleção de facas, é impossível não mergulhar na arte e na magia que cada peça carrega: sua marca, o cuteleiro que a produziu, sua história e o modo como foi utilizada.

Minha primeira faca, que guardo até hoje com carinho, foi uma Cascavel. Também me aventurei como cuteleiro, forjando minhas próprias peças. Para isso, comprei o mínimo de equipamentos necessários e mergulhei nessa técnica milenar do fogo e do aço. Lembro do dia em que passei horas esquentando o metal, batendo ferro em um trilho, temperando no óleo. Gastei quase um botijão de gás inteiro para produzir aquela faca. Quando tentei vendê-la, o valor oferecido não cobria nem metade do gasto, o que me deixou frustrado. Foi aí que compreendi o verdadeiro valor do trabalho do cuteleiro: é um sacerdócio, um ofício que exige paciência, conhecimento e dedicação. Por isso, hoje jamais questiono o preço pedido por um Cuteleiro, pois sei o quanto de suor existe por trás de cada peça.

Nesse mundo de compra e venda, de “brick de facas”, temos o privilégio de conhecer e manusear diversos tipos, testemunhando a cronologia da faca gaúcha até os dias atuais.

Mas, afinal, qual seria a verdadeira faca do gaúcho, aquela que se adapta à rotina do campo? Acredito que, entre pesquisas, leituras e conversas, a faca legítima seja aquela de cabo rústico de madeira, lâmina grande e comprimento mediano, própria para ser usada na cintura. Não é sofisticada, porque o gaúcho primitivo não tinha acesso a adornos elaborados. A sofisticação veio depois, com marcas famosas como a Schönberg, de Pelotas, hoje raríssima e altamente valorizada.

Essas facas finas, de estilo campeiro, servem tanto para a lida bruta quanto para a lida delicada, pois mantêm o fio e, quando necessário, bastam duas ou três passadas na chaira para que retomem o corte.

A história das facas é vasta. Um exemplo é a caroneira, de grande importância histórica. Surgiu dos embates: espadas quebradas nos campos de batalha eram reaproveitadas, adaptadas com um cabo, transformando-se em facas carregadas entre os arreios dos cavalos — verdadeiras companheiras de combate.

As facas mais valiosas, no entanto, não são apenas as de marcas famosas, mas aquelas que contam histórias. Um exemplo é a minha faca com a marca Dois Touros, do renomado músico, poeta e cuteleiro Miguel Bicca. Tive a felicidade de mostrar a peça a ele, que me explicou ser uma das poucas que produziu com cabo de resina, como experimento. Após sua morte, essa faca ganhou ainda mais valor em meu acervo — não apenas pelo mercado, mas pelo legado que representa.

Outro destaque é a faca Solingen Franz Wenk — reconhecida pelo “servo saltitante” em sua marca. Embora muitos pensem que Solingen seja uma marca, trata-se, na verdade, de uma região da Alemanha, berço de diversos fabricantes de aço de alta qualidade. Esse tipo de peça é muito procurado por colecionadores.

Também é comum transformar tesouras de tosquia antigas, já sem serventia, em facas de excelente corte — como as Burgon Boll, inglesas ou as uruguaias Ruan Malhos.

Não há gaúcho, ou casa campeira, que não tenha ouvido falar de marcas como Coqueiro, Palmeira, Paineira, Ipê Garantida e Gaúcha. símbolos da tradição.
Entre elas, merece destaque especial a Eberle, com suas bainhas inconfundíveis, ricamente trabalhadas e acompanhadas da clássica cornetinha, que se tornaram marca registrada e objeto de desejo de colecionadores e apreciadores.

Marcas mais modernas e refinadas também ocupam espaço, como as facas Don Cássio Selaimen ou as Dávila, que trazem a assinatura de seus cuteleiros e se tornaram objeto de desejo de colecionadores.

Além disso, muitos facões antigos (Tramontina, Riograndense, Collins, Corneta, Japi, Siriri colombiano, entre outros) foram adaptados, reduzidos e receberam cabos de madeiras nobres como de ipê, guajuvira e pau-ferro, transformando-se em belas facas campeiras.

A cutelaria gaúcha é fantástica. Cada peça é uma jóia que o gaúcho leva junto ao corpo, rente à cintura — sempre pronta para ser usada, seja na lida ou na vida.

Aqui em São Borja, temos orgulho de cuteleiros que perpetuam essa tradição. Destaco Mário Fraga, hoje uma das maiores referências do Rio Grande do Sul; seu aprendiz Vinícius ( que hoje está em outro lida) que muito me ajudou no acabamento de facas; e meu grande amigo Jefferson Augusto, com quem compartilho longas conversas sobre a arte da forja.

Com martelo na mão e o aço incandescente sobre a bigorna, esses homens seguem batendo, batendo, batendo… até transformar o metal duro em uma boa faca. E assim mantêm viva a tradição, para que cada peça encontre repouso em sua bainha e, quando chamada, cumpra sua missão.

Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

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