Coluna Isaac Carmo – A Passagem de Osório por São Borja e Seu Legado na Fronteira

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Foto : Reprodução

Meu artigo, no qual relato a passagem do legendário Manuel Luís Osório por São Borja, já era de conhecimento de muitos. No entanto, para uma grande parte dos amigos e leitores que me procuraram, causou surpresa o fato de que este vulto histórico, que tanto contribuiu para a construção do Brasil, tenha residido em São Borja.
Diante disso e dos desafios apresentados, tive a grata satisfação de me encontrar com o General de Brigada Luiz Cláudio da Lalavera de Azeredo, comandante da 1° Brigada de Cavalaria Mecanizada, também admirador dos ideais de Osório. Demonstrou-se muito feliz por estar à frente de unidades vinculadas a essa tradição histórica.

Nossa conversa gerou a necessidade de aprofundar detalhes que comprovassem, de fato, a estadia de Osório em São Borja. Tais elementos encontram respaldo em importantes obras, como as de J. B. Magalhães, considerado um dos maiores biógrafos de Osório, bem como nos registros de Francisco Ruas Santos, que também mencionam essa passagem.

Conforme destacado em meu artigo anterior, quando Osório foi designado para o comando na região, há relatos históricos de que tal decisão ocorreu, em parte, por ciúmes e vaidade de seus superiores, visto que ele gozava de grande carisma junto à tropa e até mesmo entre seus inimigos, que o respeitavam e mantinham diálogo com ele.

Osório residiu no local onde hoje se encontra a loja Magazine Camponesa, situada na rua que atualmente leva seu nome, General Osório — antigamente conhecida como Rua Sol da Vila de São Borja, conforme material me eviado pelo grande historiador Clóvis Benevenuto.

As ordens para sua vinda a São Borja estão registradas na obra de Afonso Arinos de Melo Franco e Américo Jacobina, na qual consta que sua missão era obter informações precisas sobre o estado da fronteira e dos países vizinhos, diante da possibilidade de hostilidades.
Entretanto, Osório foi além de sua missão militar. Como homem de visão política e ligado ao Partido Liberal, procurou integrar-se à rotina da cidade. Isso fica evidente na obra “A Invasão Paraguaia na Fronteira Brasileira do Uruguai”, do Cônego João Pedro Gay, que relata que, à época, também residia em São Borja o então Coronel Manoel Luís Osório, mantendo estreitas relações com o sacerdote e com o sábio Bompland, médico que possuía farmácia na cidade.

Segundo o Cônego Gay, esses homens ilustres reuniam-se frequentemente em proveitosas trocas de ideias em benefício do Brasil, juntamente com o são-borjense Capitão Joaquim da Silva Lago, que havia sido educado na Europa e atuado em missões diplomáticas no Uruguai e no Paraguai.

A nomeação do Capitão Lago como comandante da Guarda Nacional gerou controvérsia, pois oficiais mais antigos pleiteavam o cargo. No entanto, Osório, com sua reconhecida firmeza, sustentou sua decisão e confirmou Lago na função. Diante da insatisfação, alguns oficiais chegaram a cogitar revoltas.

O caso chegou ao conhecimento do Império, que solicitou explicações a Osório. Com sua objetividade, ele respondeu que conhecia bem os opositores: apontou que entre eles havia analfabetos, jogadores inveterados, covardes que evitaram a guerra, indivíduos com problemas judiciais e outros movidos apenas por interesses próprios. Sugeriu, inclusive, que todos fossem chamados à província para esclarecer tais acusações.

Diante disso, o Capitão Lago foi confirmado pelo governo imperial, não havendo maiores consequências.
A atuação de Osório em São Borja foi marcada por constante evolução. Destaca-se sua participação na busca pelo campo das Vacas Brancas, fato que posteriormente contribuiu para que, ao ser agraciado com o título de Marquês, adotasse o nome de Marquês do Herval.

Mesmo enfrentando dificuldades e ataques à sua honra por parte de adversários, Osório também atuou em melhorias concretas para a região. Antes de deixar São Borja, intercedeu junto a seu amigo deputado Belo, para resolver questões locais, como:
Execução de decreto que permitia a importação e exportação direta pelo porto de São Borja; Revogação da incorporação de territórios de São Borja a Cruz Alta; Melhoria salarial e incentivo aos professores primários; Construção de ponte ou passagem de animais no Passo do Itaó, beneficiando Alegrete, Cruz Alta, São Borja, Livramento e Uruguaiana;
Abertura de canal na cachoeira do Butuí, no Rio Uruguai, facilitando a navegação no verão.
Ao chegar à cidade, Osório também percebeu a carência de professores e a ausência de advogados, demandas que foram posteriormente atendidas pelo Império.

Fatos como esses demonstram a importância de sua passagem por São Borja. Seu legado contribuiu diretamente para o desenvolvimento local, inclusive no campo da educação. Em 1958, foi fundada uma escola municipal isolada com o nome de Marquês do Herval, na localidade de São João Tujá. Embora a escola não exista mais, representou uma justa homenagem. O decreto de sua criação foi o de número 1427.

Dessa forma, nada mais justo que São Borja preste as devidas honras a esse cidadão que marcou a história do Brasil. Para nossa alegria, ele residiu por cerca de três anos nesta terra, chegando aos 47 anos de idade, buscando valorizar suas qualidades, suprir necessidades, corrigir injustiças e, acima de tudo, fortalecer o amor por este torrão fronteiriço.

Isaac Carmo Cardozo é Tenente da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

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