Foi nos frios de junho de 2019 que conheci o capataz Timóteo Azevedo Guimarães, da Fazenda Sede, no Rincão dos Paulas, interior de São Borja, propriedade de Celso Rigo. Estávamos alojados naquela estância por ocasião da realização da Operação Hórus, que tinha por objetivo o combate aos crimes fronteiriços, como o abigeato, o contrabando e o descaminho. Precisávamos de um ponto-base para descanso e, posteriormente, para seguir as missões que se desencadeavam diariamente.
Naquela manhã gelada, acordei com os gritos dos homens do campo na mangueira da fazenda. Movido pela curiosidade e pelo apreço que sempre tive por nossa cultura fui ver do que se tratava. Carrego comigo o pensamento de que sempre há algo a aprender com aqueles que estão ao nosso redor.
Deparei-me com a figura firme de seu Timóteo, montado em seu baio, ao lado de outro peão. Diante deles, oito bovinos permaneciam enfileirados e imóveis. Quando algum tentava se mover, era prontamente contido com o relho, para que mantivesse a posição. Observei atentamente toda aquela lida campeira e, em conversa com o capataz, indaguei sobre o que faziam.
Foi então que ele me explicou que o patrão havia adquirido aquele gado em São Paulo e que os animais estavam sendo trabalhados para se tornarem gado sinuelo.
O gado sinuelo é um bovino extremamente manso e treinado, utilizado na pecuária como guia para conduzir rebanhos ariscos ou “xucros” ao destino desejado, como as invernadas. Esses animais facilitam a lida campeira, acalmam o grupo e reduzem o estresse no manejo, atuando como verdadeiros líderes da tropa. Têm grande representatividade em uma estância, pois são fundamentais na busca do gado no mato e na condução segura do rebanho.
Embora eu tenha raízes fincadas no campo por herança de meus antepassados, naquela manhã recebi um ensinamento valioso daquele capataz que, em seu ofício, representa muito da essência da cultura gaúcha. Seu trabalho é silencioso, firme e indispensável um verdadeiro ofício de guerreiro, que vai muito além do que os olhos apressados conseguem perceber.
Como canta Lisandro Amaral, em música feita aqui em São Borja:
“Capataz se fez ouvindo os homens antigos,
E o valor de ser querência e ser cantor.
Teu ofício de guerreiro, meu senhor,
Vai além do que se faz.”
Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

















