Colunca de Isaac do Carmo Cardozo: O Último Charrua Agoniza

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Foto: Isaac do Carmo Cardozo

Por: Isaac do Carmo Cardozo – Colunista

Uma das muitas preocupações do saudoso escritor Ramão Aguilar era a preservação do painel do Índio Charrua, localizado na esquina das ruas Cândido Falcão e Coronel Lago, em São Borja. A obra, do renomado artista Danúbio V. Gonçalves, é um mosaico que retrata um gaúcho com indumentária típica e traços fisionômicos que remetem ao índio charrua.

Foto: Isaac do Carmo Cardozo

Esse magnífico trabalho artístico e histórico, criado por um contemporâneo de Iberê Camargo e Portinari, está estampado na antiga residência do pesquisador e historiador Ivo Drago (in memoriam). Drago defendia que os verdadeiros povoadores da Fronteira Oeste foram os índios charruas. Segundo ele, os guaranis que aqui chegaram foram trazidos pelos jesuítas desde Guaíra, na atual região argentina, ou vieram fugindo com os padres dos bandeirantes paulistas — predadores, assassinos e escravagistas — rumo ao exílio, na margem direita do rio Uruguai.

Iberê Teixeira, em seu livro 1933 – A Invasão de Santo Tomé, menciona a formação de São Borja em 1682, após a fundação da redução de Santo Tomé, e o povoamento das regiões do rio Icamaquã e do Butuí. Ele destaca que os guaranis foram “domesticados” pelos jesuítas, enquanto as terras, anteriormente, pertenceriam aos charruas ou tapes.

O painel apresenta um gaúcho com lenço a meia espalda, laço na mão direita, tirador na cintura e botas com esporas chilenas. Seus cabelos estão atados com uma vincha, acessório utilizado pelos charruas para afastar os cabelos do rosto durante a caça ou o combate. A vincha evoluiu historicamente, transformando-se no lenço ao pescoço — hoje um símbolo da cultura gaúcha —, representado ali neste gaúcho charrua fronteiriço.

Embora esteja vestido com elementos do século XX, o artista transmite a ideia de que a essência do gaúcho da fronteira nasce no índio charrua — herdeiro de um espírito indomável de liberdade, determinação e profundo amor à terra, características demonstradas ao longo dos tempos. Assim defendia Ivo Drago em sua obra O Gaúcho Charrua da Fronteira Oeste.

Ivo Drago prosseguia afirmando que o gaúcho da fronteira herdou dos charruas não apenas traços físicos — o porte altivo, a força e até a cor, vinda de antigas migrações asiáticas —, mas também um caráter fraterno, digno e honrado, amplamente respeitado por todos os brasileiros. Essas características foram impressas na sensibilidade de Danúbio Gonçalves, que as traduziu neste painel, ainda visível na esquina histórica de São Borja.

Assim como muitos, Ramão Aguilar expressava preocupação com a deterioração da obra, feita com milhares de pastilhas de cerâmica. Em nossas conversas, falávamos sobre a importância de sua preservação adequada, pois, com o tempo, sem cuidados, o painel corre o risco de desaparecer fisicamente, restando apenas em fotografias e livros como registro de um símbolo da cultura fronteiriça representado na figura do índio charrua.

Cabe destacar que este painel merece maior valorização, inclusive com a instalação de luminárias que possibilitem sua visualização noturna de forma mais expressiva.

Criado na década de 1970, o painel guarda certa semelhança com o símbolo oficial do Rio Grande do Sul — o Laçador. No entanto, ao contrário do índio charrua de São Borja, o Laçador tem o braço esquerdo livre, usa bigode e botas de garrão de potro.

São Borja pode se tornar um verdadeiro museu a céu aberto. Basta, para isso, que passemos a preservar o que já temos.

Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

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