Colunca de Isaac do Carmo – Entre a Ordem e a Magia: Uma Madrugada Fronteiriça

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Desenho de Rafael Rossini

Por: Isaac do Carmo Cardozo – Colunista

A função do policial militar, cuja missão é o patrulhamento ostensivo e a preservação da ordem pública, exige grande comprometimento de seus integrantes.
Nesses períodos de intenso frio, quando as madrugadas parecem intermináveis, sempre há uma equipe policial percorrendo a cidade, zelando pela segurança de todos.

Em uma dessas madrugadas geladas, a viatura patrulhava toda a extensão da cidade quando os policiais notaram algo estranho: as estátuas de Telmo de Lima Freitas, do casal fandangueiro, de Maria do Carmo, de João Goulart e de Getúlio Vargas não estavam em seus devidos lugares.
Aquela cena causou grande preocupação, pois não havia nenhum registro de furto ou remoção programada.

Essas estátuas, produzidas pelo grande artista plástico Rossini Rodrigues e sua equipe — Magal e Rafael —, hoje símbolos de São Borja, simplesmente haviam desaparecido.
De imediato, iniciamos diligências para descobrir para onde poderiam ter ido.

Nas proximidades do local onde deveria estar a estátua de Telmo de Lima Freitas, avistamos o conhecido estabelecimento aonde funcionou o Bailão do Gordo — atualmente apenas um prédio desocupado, com uma placa de “aluga-se” na fachada.
No entanto, do fundo do prédio vinha o som suave de uma gaita de botão.
Olhamos uns para os outros, intrigados: sabíamos que aquele espaço estava vazio havia meses.
Decidimos entrar.
O ambiente estava semiaberto, e avançamos com cautela.

Foi então que, ao fundo, testemunhamos uma cena inusitada: a estátua de Telmo de Lima Freitas tocava sua gaita, enquanto o casal fandangueiro rodopiava em passos compassados pela pista.
Em um canto do salão, João Goulart e Getúlio Vargas conversavam animadamente, compartilhando a cuia de chimarrão, como há muito não se via.
Do outro lado, Maria do Carmo era cortejada por outras estátuas que também haviam aderido ao baile.
Perto de um antigo balcão, os bustos de Aparício Mariense e Leonel Brizola discutiam política, tudo embalado pela toada missioneira naquela fria madrugada de junho.

Ficamos profundamente surpresos: as obras haviam se reunido por conta própria para celebrar a cultura e a memória da cidade naquela noite mágica.
Fomos informados de que aquela reunião se encerraria em breve, para não causar alvoroço, e que todos retornariam aos seus lugares antes que o dia amanhecesse.

Assim, repassamos o serviço aos nobres colegas, assegurando que, naquela missioneira e fronteiriça São Borja, tudo seguia em perfeita ordem.

Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

 

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