Após seis meses de conversas tímidas, PT e PDT fizeram os primeiros movimentos mais concretos na tentativa de formar aliança para a disputa do governo do Estado. Durante reunião na segunda-feira (16), dirigentes dos dois partidos colocaram na mesa as condições para a coligação e avançaram na costura de um acordo.
Conduzida com extremo cuidado por ambos os lados, a conversa se encerrou com o PDT mantendo a pré-candidatura de Juliana Brizola ao Piratini. Já o PT, pela primeira vez, abriu a guarda na possibilidade de ceder a cabeça de chapa aos trabalhistas.
A principal preocupação dos petistas é não desmobilizar a militância e construir uma “saída honrosa” para Edegar Pretto, cuja pré-campanha já passou por sete cidades nas caravanas organizadas pelo partido. Enquanto a reunião se desenrolava na sede do PDT, o marqueteiro escolhido pelo PT para conduzir a propaganda eleitoral desembarcava em Porto Alegre.
Como foi a reunião
Primeiro a falar, o presidente do PDT gaúcho, Romildo Bolzan Júnior, salientou que a busca por unidade teve origem na cúpula dos dois partidos. Romildo lembrou que o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, vinha conversando com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o presidente do PT, Edinho Silva. Em seguida, disse que não estava ali para impor nada, que reconhecia a dificuldade do PT em abrir mão da candidatura própria, algo inédito, e que era importante estipular um prazo para as negociações.
Coordenador da campanha de Juliana, Vieira da Cunha pediu a palavra e afirmou que o PDT tinha uma candidatura competitiva, capaz de vencer. Como exemplo dessa solidez, apontou que, pela primeira vez, o PDT tinha um nome apoiado por todos seus deputados, algo que nem ele tivera nas duas vezes que concorrera a governador. Para atenuar as desconfianças do PT de que os trabalhistas não se engajariam na reeleição de Lula, Vieira se comprometeu a liderar pessoalmente a campanha no Estado.

Do outro lado da mesa estavam o presidente estadual do PT, Valdeci Oliveira, além dos dirigentes Carlos Pestana, Cícero Balestro e Júlio Quadros. Os petistas perguntaram quais eram as reivindicações do PDT. Ouviram que não havia interesse além da cabeça de chapa. Romildo e Vieira disseram apoiar Paulo Pimenta (PT) e Manuela D’Ávila (PSOL) ao Senado, se contentando em indicar apenas um segundo suplente de Pimenta.
Quando o PT lembrou da resistência do PSOL em apoiar Juliana, em função da presença do PDT no governo Eduardo Leite, Vieira respondeu que vem conversando com os socialistas. Reconheceu as diferenças ideológicas, mas salientou que o PSOL estaria com eles em um eventual segundo turno.
Surgiu então o momento mais delicado da conversa. Os petistas perguntaram se havia possibilidade de o PDT apoiar Edegar. Medindo as palavras, Romildo e Vieira elogiaram Edegar, destacaram sua trajetória, mas disseram que não havia como recuar na candidatura de Juliana.
O PT perguntou se o PDT estava disposto a retribuir o apoio em 2028, na disputa pela prefeitura de Porto Alegre. Os pedetistas assentiram, mas condicionaram a futura aliança a uma negociação conjunta envolvendo o PSOL.
Ao final do encontro, o PDT manifestou preocupação com uma possível falta de engajamento do PT numa campanha de Juliana caso a aliança seja imposta por Lula e pelas direções nacionais dos dois partidos. Valdeci e Júlio Quadros ressaltaram a disciplina do PT, a começar por suas principais lideranças. A todo momento, os petistas destacaram a necessidade de unidade da esquerda, sobretudo no empenho à reeleição de Lula.
Romildo e Valdeci combinaram o que falariam à imprensa: as candidaturas de Juliana e Edegar estão mantidas, ambos estão unindo esforços pela aliança e uma nova reunião iria ocorrer em 25 de março, desta vez na sede do PT.

As impressões pós-encontro
O PDT deixou o encontro com um otimismo até então inédito desde que as conversas começaram, em setembro. O partido busca agora evitar qualquer movimento errático que possa prejudicar a aproximação.
O PT, por sua vez, tem arestas a aparar. Parte da cúpula resiste a ceder a cabeça de chapa, inclusive temendo diminuir o número de deputados estaduais e federais sem um candidato próprio na urna.
Outro problema é como lidar com a frustração de Edegar caso se confirme o apoio a Juliana. Uma eventual recompensa seria torná-lo ministro do Desenvolvimento Agrário a partir de abril, mas a vaga já está destinada a Fernanda Machiavelli, secretária-executiva da pasta. O mais provável é que ele concorra a deputado federal, com forte investimento do partido.
Lula deseja “palanque único” no RS
Edegar sentiu que sua candidatura estava sob forte risco na semana passada, quando se reuniu em Brasília com Edinho Silva. Até então, ele se mantinha confiante. Havia sido estrela do lançamento das caravanas do partido, quando defendeu a possibilidade de Lula ter dois palanques no Estado em 2026, e estava prestes a participar do primeiro debate entre os pré-candidatos, no Litoral.
Todavia, dias antes, o PDT demonstrou descontentamento com o lançamento das caravanas petistas, duas semanas após Juliana ser recebida por Lula no Palácio do Planalto. Na ocasião, o diretório trabalhista foi orientado a formalizar um pedido de reunião com o PT para avançar na construção da aliança. Romildo enviou ofício a Valdeci de Oliveira e ambos combinaram de se encontrar após o Carnaval, mas nada foi marcado.
O partido reclamou com Carlos Lupi, que acionou Lula. O presidente, por sua vez, cobrou Edinho. Edegar foi chamado para uma reunião na quinta-feira, 5 de março. Pretto disse que tinha agendas no RS e o encontro ficou para a segunda-feira seguinte (9). Em conversa com a direção do PT local, foi orientado a defender junto a Edinho dois palanques para Lula no RS, o dele e o de Juliana.
O dirigente, porém, foi taxativo: Lula teria palanque único no Rio Grande do Sul e queria ver PT e PDT juntos. Em publicação nas redes sociais após a reunião, Edinho e Pretto ressaltaram essa necessidade.
Na sequência, Edinho reafirmou essa posição durante reunião do Grupo de Trabalho Eleitoral, coletivo que coordena a estratégia partidária em todo o país: Lula teria um palanque só no RS e a aliança com o PDT é “prioridade nacional”. Um resumo da reunião foi noticiado pela Folha de S. Paulo, e Edinho fez questão de mandar link da notícia a dirigentes do PT gaúcho.

O discurso oficial, porém, é que a pré-campanha de Edegar continua. O partido já tem uma equipe de comunicação trabalhando em um escritório na Capital e está prestes a fechar contrato com o jornalista Vitor Colares para chefiar as ações de marketing. Tendo no currículo as vitórias de Alexandre Kalil à prefeitura de Belo Horizonte em 2016 e 2020, a eleição da deputada federal Duda Salabert (PDT) em 2022 e a missão de aumentar o engajamento da campanha do filme Ainda Estou Aqui na corrida ao Oscar em 2025. Vitor passou esta terça-feira (17) em reuniões internas do PT.
No início da noite desta terça-feira estava prevista uma reunião do Grupo de Trabalho Eleitoral do PT nacional com o diretório gaúcho do partido.
Fonte: GZH


















