Crônica: O Monge e a Brigada Militar de São Borja

PUBLICIDADE

WhatsApp Image 2025-01-16 at 10.30.38
Foto: Reprodução

Por: Isaac Carmo Cardozo – Colunista

Nas minhas pesquisas, deparei-me com a figura de um monge que esteve em São Borja entre 1926 e 1929, há quase 100 anos, segundo apontamentos históricos e uma fotografia da época. Procurei me aprofundar nos fatos com a professora Adriana Duval e com o nosso “Wikipedia samborjense”, Clovis Benevenutti.

Minha curiosidade surgiu quando, durante um atendimento de ocorrência na Rua Alberto Benevenutti, vi uma foto antiga de um homem de capa, com cabelos compridos e barba — isso há cerca de quatro anos. Recentemente, voltei a ver essa figura, desta vez cercada de pessoas, entre elas brigadianos. Percebi que aquela foto que havia visto anteriormente tinha sido recortada de um contexto fotográfico maior.

Conforme relato de Timotheo Ávila, a foto ilustra o Monge na pracinha do Quartel Velho, no Passo, próximo à estação de tratamento de água da Corsan, atual Vila Progresso. Na imagem, observam-se alguns militares da Brigada Militar, do 2º RCI (Regimento de Cavalaria Independente) e do 14º Corpo Auxiliar da Brigada Militar, chamado de “Provisório”.

O Monge andante havia armado uma barraca próxima à Rua República, onde frequentemente era apedrejado. Por esse motivo, os militares passaram a lhe oferecer proteção, organizando patrulhas dia e noite. Alguns brigadianos, em determinados momentos, notavam sua ausência, principalmente à noite. Apesar de ser noite escura, havia sempre uma claridade estranha, tanto dentro quanto fora da barraca. Junto às preces, o Monge fazia orações nas quais pedia a Deus que amenizasse todos os males do mundo, rogando para que, em São Borja, esses males fossem menores, e que Deus perdoasse aqueles que nele jogavam pedras.

Esse monge ficou ainda mais conhecido por suas previsões, principalmente uma referente a uma grande tormenta que ocorreria. E, de fato, no dia 10 de outubro de 1935, dia do padroeiro São Francisco de Borja, uma jovem costureira faleceu, conforme relato de Ávila.

Uma de suas mais notáveis previsões foi de que, em breve, a cidade de São Borja teria um filho que governaria o Brasil. Isso se concretizou no ano de 1930, com Getúlio Vargas.

Segundo uma edição do jornal Correio do Povo, de 1983, que publicou a foto do Monge, ele era procedente da Índia, falava fluentemente o idioma espanhol e se chamava Juan Manoel Bautista.

A chegada desse Monge a São Borja se deu por Santo Tomé. Conforme relatos de Algemira Vilanueva, Domicia Maciel e Elvira Maciel (já falecidas), João Laguna, que foi delegado no bairro do Passo por muitos anos e possuía uma lancha de passageiros que fazia viagens entre os portos de São Borja e Santo Tomé, contou que, certa vez, ao ver o Monge no porto de Santo Tomé, convidou-o para vir ao Brasil. O Monge respondeu:

“Gracias, mi hijo. Yo voy arriba de una hojita.”
(“Obrigado, meu filho. Eu vou em cima de uma folhinha.”)

Quando a lancha chegou ao porto de São Borja, os passageiros, surpresos, exclamaram:

— Ali está o homem que estava em Santo Tomé! Mas é um milagre de Deus! Como ele conseguiu chegar antes da lancha?

Todos se aproximaram do Monge e perguntaram:

— Quem é o senhor? De onde vem?

Ele respondeu:

— Sou um enviado de Deus. Me chamo João Batista.

Este fato foi publicado pelo escritor José Nelson Corrêa em seu livro “Mitos, Lendas, Crenças e Mistérios de São Borja”.

Analisando essa fotografia histórica, citada por Timotheo Ávila, ele afirma que os militares que aparecem junto ao monge seriam da Brigada Militar, do 2º RCI (Regimento de Cavalaria Independente) e do 14º Corpo Auxiliar da Brigada Militar, chamado de “Provisório”. No entanto, considerando que esse monge esteve na cidade entre 1926 e 1929, é provável que os únicos militares presentes fossem da Brigada Militar, mais especificamente do 7º Corpo Auxiliar da Brigada Militar, que, após as Revoluções de 1923 e 1924, permaneceu instalado em São Borja para a manutenção da ordem pública e pronto para ser mobilizado, caso fosse do interesse do Estado, sendo que o 14°Corpo Provisório da Brigada Militar foi criado a partir de 1930.

Na fotografia, aparenta tratar-se de uma patrulha, pois é possível contar quatro brigadianos, sendo que dois estão na retaguarda do nobre Monge. Um detalhe curioso é que, logo após o monge armar sua barraca e começar a ser apedrejado, os brigadianos passaram a protegê-lo, organizando uma escala de patrulhas, tanto de dia quanto de noite. Um sinal claro da aproximação do Monge com os policiais é que ele aparece vestindo uma capa rural ou um poncho, utensílio este que fazia parte do fardamento da época, certamente oferecido por um brigadiano, para que ele não passasse frio e se protegesse das intempéries de nossa fronteira.

O fato é que esse Monge, que esteve em São Borja, fez previsões, foi acolhido e protegido pela Brigada Militar da época, e hoje é cultuado espiritualmente por muitas pessoas na cidade. Ele já faz parte da crendice popular de São Borja.

Este homem, que sempre pediu a Deus que amenizasse os males do mundo — especialmente para que, em São Borja, eles fossem menores — e que perdoasse aqueles que lhe atiravam pedras, deixa um legado de amor, compaixão e da prática de não retribuir o mal com o mal.

Há relatos de que esse Monge praticava o bem, curava doentes e era muito querido e respeitado pelas pessoas do interior. Segundo o depoimento do Sr. João Apolinário de Almeida, em determinado dia ele se despediu de todos e saiu sem dizer para onde ia, caminhando lentamente e seguindo a linha férrea até desaparecer no horizonte. A partir desse dia, nunca mais foi visto, nem se teve mais notícias dele.

A Brigada Militar, por sua vez, teve uma participação histórica e marcante neste episódio, demonstrando a importância de cultuarmos e preservarmos a memória de nossos antepassados, para que ela não se perca no tempo.

Nossa instituição caminha para seus 200 anos, construídos por nobres militares que sempre estiveram na proteção dos mais fracos e na defesa de ideais.

Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

Mais recentes

PUBLICIDADE

WhatsApp Image 2025-12-08 at 12.04.19
Rolar para cima