Ex-vereador Gilvani Gringo é preso pela Polícia Civil por suspeita de liderar esquema de fraude licitatória

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Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

O empresário e ex-vereador de Porto Alegre Gilvani Dall Oglio, conhecido como Gringo, foi preso preventivamente pela Polícia Civil na manhã desta sexta-feira (17). O mandado foi cumprido na residência dele, na zona norte da Capital. Batizada de Effluxus, a operação investiga um suposto esquema de ocultação de controle empresarial para fraudar licitações. As contratações sob suspeita envolvem serviços de desobstrução de redes pluviais e de esgoto, hidrojateamento, transporte e descarte de resíduos.

Além da prisão preventiva, sem prazo pré-definido para se encerrar, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão, sendo quatro deles contra familiares de Gringo: três filhas e um irmão, todos suspeitos de integrar o esquema. Outros dois filhos de Gringo são investigados. Com ordem judicial, foram bloqueados cerca de R$ 2,5 milhões em ativos financeiros e indisponibilizados imóveis e veículos. Os investigados tiveram suspenso o direito de contratar com o poder público.

Um filho do empresário foi preso em flagrante por posse irregular de arma de fogo. Será oferecida a ele a possibilidade de ser liberado mediante fiança. Ele estava na sede de uma das empresas em que foram cumpridos mandados.

No cumprimento de mandado de busca e apreensão contra uma filha de Gringo, o companheiro da mulher arremessou um telefone celular pela janela, mas o aparelho foi recuperado pelos policiais.

A operação apura fraude à licitação, associação criminosa, corrupção ativa de testemunha, falsidade ideológica e material.

Como funcionava o esquema

  • Os delitos seriam cometidos a partir das empresas Limpservice Prestação de Serviços e Safety Ambiental. Elas fariam parte do mesmo grupo econômico e concorriam juntas em licitações para fraudar a competição. 
  • A Limpservice saiu vencedora nas cinco contratações mapeadas, enquanto a Safety só perdeu. Nenhuma delas está em nome de Gringo, mas a polícia recolheu indícios de que ele é o controlador, se valendo de laranjas. 
  • A Limpservice está em nome de um filho do ex-vereador, enquanto a Safety já foi propriedade de um irmão dele e de outro homem, ambos apontados como empregados.
  • As licitações fraudadas seriam da Polícia Penal e das prefeituras de Capão da Canoa, Gramado, Gravataí e Osório, entre 2024 e 2025. Os contratos somam cerca de R$ 2,5 milhões. Os órgãos públicos teriam sido vítimas. A competição seria simulada, com a perdedora, a Safety, pedindo valores mais altos.
  • Para demonstrar que Gringo é o controlador, a Polícia Civil aponta confusão patrimonial e operacional entre as duas empresas que teriam fraudado as licitações e uma terceira organização, a MJM Serviços de Limpeza, esta registrada em nome do ex-vereador. 
  • São mencionados o uso do mesmo e-mail, o reconhecimento solidário de dívidas e as ações trabalhistas de antigos empregados. 
  • Houve confirmação de que, para concorrer à contratação da Polícia Penal, tanto a Limpservice quanto a Safety se valeram de estrutura tecnológica ligada a Gringo para fazer os acessos online às licitações.
  • Em depoimento, uma ex-empregada apresentou evidências de que o ex-parlamentar teria lhe oferecido R$ 2 mil para “abafar o caso”.
  • A investigação aponta que o grupo teria cometido “dumping social”. A prática consiste em baixar custos desrespeitando direitos trabalhistas. 

— Esquemas dessa natureza geram graves distorções no mercado e impactam diretamente os trabalhadores, que não receberão integralmente seus direitos — avaliou o delegado Cassiano Cabral, diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes contra a Administração Pública (Dercap).

Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Operação apura fraude à licitação, associação criminosa, corrupção ativa de testemunha, falsidade ideológica e material.Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Contrato com o Dmae

A Polícia Civil apontou que Gringo teve contrato com o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae), em Porto Alegre, durante o exercício de mandato parlamentar por meio da Safety, que seria propriedade dele. A contratação, de R$ 3,6 milhões, visava o transporte e a distribuição de água potável. Além disso, na condição de parlamentar, ele recebeu pagamento do Dmae por serviço prestado pela MJM, da qual é proprietário. As condutas ferem a Lei Orgânica de Porto Alegre e foram apontadas como indício de comportamento delitivo reiterado. Essa foi a base do pedido de prisão: cessar a reincidência e preservar a investigação.

A operação foi autorizada por decisão da 2ª Vara Regional de Garantias de Porto Alegre.

— Foram mais de 10 meses de investigação técnica e consistente, que identificou a atuação de um líder responsável por estruturar e comandar um esquema familiar. As medidas visam impedir a continuidade das fraudes — afirma o delegado Augusto Zenon, da 2ª Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Administração Pública Municipal.

Cassação na Câmara

Eleito em 2024 pelo Republicanos, Gringo teve o mandato de vereador cassado pela Câmara em dezembro de 2025. Um dos motivos foi o contrato com o Dmae. Os vereadores entenderam que Gringo era o controlador da Safety, colocando “laranjas” à frente da empresa.

Contraponto

A reportagem busca contato com a defesa do ex-vereador. O espaço está aberto para manifestação.

GZH

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