Após inúmeras afirmações do governo Donald Trump, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos retirou a acusação de que Nicolás Maduro é o líder do Cartel de los Soles — organização narcotraficante designada como terrorista pelos EUA. A informação é do The New York Times.
A suposta liderança de Maduro frente à organização foi um dos principais argumentos adotados por Trump para justificar o ataque à Venezuela no último sábado (3). A ofensiva norte-americana resultou na captura do presidente venezuelano, que está preso nos Estados Unidos e será julgado no país.
Conforme o New York Times, Cartel de los Soles é um termo criado pela imprensa venezuelana em 1990 para se referir a funcionários corrompidos pelo tráfico de drogas. Em denúncia apresentada após a captura de Maduro, o Departamento Justiça dos EUA admitiu isso.
A denúncia reescrita abandonou a afirmação de que o “cartel” é uma organização criminosa real. Com isso, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos passou a citar o suposto cartel como um “sistema de clientelismo”, “uma cultura de corrupção” fomentada pelo tráfico de drogas e dinheiro.
O New York Times destaca que o Cartel de los Soles é citado apenas duas vezes no novo documento, enquanto nas primeiras denúncias aparecia 32 vezes, sempre com Maduro sendo apontado como líder.
A nova postura do Departamento de Justiça levanta dúvidas sobre a validade da classificação do Cartel como uma organização terrorista estrangeira, medida imposta pela gestão Trump no ano anterior. Até o momento, a Casa Branca e as pastas da Justiça, Estado e Tesouro têm evitado se manifestar sobre as mudanças no texto da acusação.
Para Elizabeth Dickinson, diretora adjunta do International Crisis Group, a nova descrição é mais “fiel à realidade” do que a versão apresentada em 2020. Segundo ela, embora a acusação atual seja mais precisa tecnicamente, as designações de terrorismo ainda carecem de base factual sólida:
— Eles sabiam que não conseguiriam provar a existência de um cartel estruturado no tribunal — afirmou Elizabeth.
O conflito entre discurso e evidência
Apesar do recuo jurídico, o governo mantém a retórica política. No último domingo (4), o senador Marco Rubio reafirmou à NBC que os EUA manterão o direito de atacar embarcações ligadas ao que ele ainda chama de “Cartel de los Soles”. Rubio insistiu que Maduro é o líder supremo da organização, ignorando a revisão feita pelos promotores.
Contradições também aparecem nos registros históricos das agências de inteligência. Nem a Avaliação Anual de Ameaça da DEA, nem o Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, jamais listaram o “cartel” como uma organização de tráfico real. Em contraste, a denúncia de 2020 descrevia o grupo como uma engrenagem militarizada que usava a cocaína como “arma” contra o território americano.
A revisão do documento não se limitou a suavizar a definição do cartel, ela também incluiu novos réus, como o líder da gangue Tren de Aragua. No entanto, a conexão estabelecida entre o grupo criminoso e Maduro é considerada frágil por especialistas. A denúncia baseia-se em telefonemas de 2019, nos quais o líder da gangue ofereceria serviços de escolta para carregamentos de drogas.
Fonte: GZH
















