Seis dias após o líder de uma facção ser executado a tiros numa ação ousada dentro da área de isolamento da Penitenciária Estadual de Canoas (Pecan), com uma pistola que ingressou na unidade içada por um drone em novembro de 2024, policiais penais flagraram dois suspeitos num matagal próximo do complexo prisional, operando esse mesmo tipo de equipamento.
Um dos flagrados é apontado como o “droneiro”, responsável por realizar entregas de armas, drogas e celulares para uma organização criminosa em diferentes cadeias do Rio Grande do Sul. Nesta terça-feira (31), suspeitos de integraram essa espécie de “companhia aérea do crime” são alvos da Operação Ícaro.
Durante a ofensiva da Polícia Civil, são cumpridos quatro mandados de prisão preventiva em unidades prisionais e nove de busca e apreensão em Canoas, Eldorado do Sul, Montenegro, Charqueadas e São Leopoldo.
— Ao longo desse ano de investigação, o que a gente pôde notar, perceber e confirmar é que existia uma empresa aérea de drones que operavam em diversas penitenciárias do Estado do Rio Grande do Sul. Faziam esse serviço de levar drogas e armas para dentro das mais diversas penitenciárias — explica a delegada Luciane Bertoletti, da 3ª Delegacia de Polícia de Canoas.

Além da Pecan, o grupo criminoso agia realizando entregas em Sapucaia do Sul, Bento Gonçalves e no Complexo Prisional de Charqueadas, entre outras penitenciárias. A polícia estima que os droneiros tenham realizado centenas de viagens. Interceptações obtidas pela apuração flagraram imagens de drogas e armas que eram levadas desta forma para dentro das cadeias.
— Eles recebiam ordens de lideranças que estavam dentro do presídio e ganhavam valores altos para isso e aí faziam esse trabalho. Eram muitas drogas e muitas armas e eles operavam todos os dias. Identificamos 40 ocorrências do período, muito semelhantes, que nos confirmam que foram feitas centenas de viagens. Isso são ocorrências que os materiais foram apreendidos. Então, a gente imagina quantos materiais não foram apreendidos e não geraram ocorrência — detalha a delegada.
O principal alvo da operação é o homem apontado como operador do drone, além de três lideranças que já estão recolhidas no sistema penitenciário e davam as ordens para que os materiais fossem entregues dentro da cadeia. A polícia identificou, no entanto, ao menos 12 envolvidos diretamente no esquema, que são alvos das ordens de buscas.
No caso registrado em novembro de 2024, quando foi flagrado o droneiro, foram apreendidos dois drones. Não é incomum que os bandidos dispensem o equipamento após a entrega, como forma de evitar o rastreamento.
— São drones de última geração, silenciosos, que são fáceis de introduzir, com voo rápido e também com capacidade para levar um peso bem significativo — diz Luciane.
Conversas interceptadas
Algumas conversas entre os criminosos foram interceptadas pela polícia. Num dos trechos, em 11 de setembro, o investigado afirma a um dos presos que está pronto para operar o drone na Pecan:
— Daqui a pouco, já vamos botar o drone pro chão, já vamos instalar certinho. Já vamos botar pro ar.
No dia seguinte, o mesmo investigado realiza uma nova entrega e avisa:
— Chegamos aqui agora. Eu tô aqui no mato já. Daqui a pouco, nós já vamos erguer o drone, irmão.
Num dos trechos, em 14 de setembro de 2024, outro investigado avisa por áudio:
— Arrumei um drone pra nós fazer Sapucaia.
Em 22 de setembro, há uma nova troca de mensagens, na qual um dos investigados avisa que está “indo trabalhar” e diz que está em Charqueadas, fazendo referência ao complexo prisional. Em outra conversa, em 25 de setembro, um dos pilotos de drone conta que houve um acidente com o equipamento:
— Só vamos buscar as outras hélices ali e já tamo de volta. O drone acabou caindo aqui. Tinha hélice reserva aqui, irmão. Fechou todas aqui.
No mesmo dia, em trocas de mensagens, um investigado avisa que está “indo fazer em Sapucaia agora. Numa das cadeia já foi concluída a missão”. O criminoso é questionado se tem mais alguma para fazer e responde: “mais duas”.
Suspeita de vínculo com morte
Em 23 de novembro de 2024, no momento da contagem de presos na área de isolamento da Pecan, Jackson Peixoto Rodrigues, o Nego Jackson, foi executado a tiros por um apenado que estava na cela em frente à sua. A investigação da Delegacia de Homicídios de Canoas apontou que a pistola de calibre 9 milímetros usada para matar o líder de facção entrou na Pecan com um drone.
Um vídeo, obtido pela investigação, mostra um objeto sendo entregue próximo da cela onde estavam os suspeitos de serem os autores do crime, às 3h06min da madrugada anterior ao assassinato. A possível facilitação por parte de policiais penais no homicídio do faccionado foi descartada pela apuração.
A descoberta de que esse grupo, alvo da operação desta terça-feira, agia de forma reiterada na mesma penitenciária, atendendo à facção que teria sido responsável pela execução de Jackson, leva a polícia a suspeitar de que esses droneiros possam ter sido os mesmos que fizeram o lançamento da arma usada na execução.
— Ainda apuramos o envolvimento desses criminosos contribuindo para a entrada de uma arma possivelmente utilizada no cometimento de um homicídio de uma liderança criminosa dentro do sistema prisional aqui em Canoas. Justamente a facção que tem uma ligação com essa empresa terceirizada é inimiga desse alvo que acabou sofrendo o homicídio — afirma o delegado regional, Cristiano Reschke.
Para o delegado, a investigação demonstra uma terceirização de algumas tarefas vinculadas ao crime organizado. Isso porque, esse grupo especializado na operação de drones, estaria atuando como uma espécie de empresa, oferecendo um serviço para a facção.
— O que se tem até o momento é a identificação de um grupo organizado, com alto conhecimento da operação de drones, que terceiriza, que oferece serviço e é contratado por uma organização criminosa para viabilizar, sabendo das dificuldades, falhas ou facilitações dentro do sistema prisional, para assim operar cometendo crimes e subsidiando as organizações criminosas com poder. Isso eu vejo com muita preocupação, porque na verdade o sistema prisional acaba servindo como uma proteção para o criminoso não ser executado na rua em disputa e de lá ele opera no escritório do crime, onde a comunicação é o principal meio — diz o delegado.

A execução de Jackson
Considerado uma das principais lideranças de uma coalização de grupos criminosos (Anti-Bala) rival à facção do bairro Bom Jesus, os Bala na Cara, Jackson sabia que estava sob perigo na Pecan.
Chegou a escrever um bilhete à direção da casa prisional, no qual afirmou temer alguma falha de segurança na unidade e alertou que drones eram usados para arremessar telefones e rádios para dentro da área de isolamento. Ele foi mantido sozinho na cela, enquanto na maior parte das demais, havia dois presos.
Do outro lado do corredor, a poucos passos da cela de Jackson, na de número 7, estava um de seus principais rivais: Rafael Telles da Silva, o Sapo, um dos chefes da facção da Capital. Junto dele, Luis Felipe de Jesus Brum, integrante do mesmo grupo e preso pelo assalto milionário ao aeroporto de Caxias do Sul, na Serra, em junho.
Jackson, numa cela cheia de livros, estava deitado, lendo, quando Sapo se aproximou pelo corredor. Do outro lado da porta de ferro, chamou o rival pela portinhola aberta — segundo os agentes relataram à polícia, isso era um procedimento habitual para manter a circulação de ar.
A porta do cárcere de Sapo havia sido aberta segundos antes por um policial penal, que realizava a contagem de presos, a partir do andar superior. Sapo deveria ter aparecido no corredor, respondido ao agente e depois retornado para a sua cela. Não foi o que ele fez.
O faccionado avançou na direção da porta da cela de Jackson. Os dois trocaram algumas palavras. A polícia acredita que Sapo tenha prometido uma trégua ao inimigo e sugerido que apertassem as mãos. Quando Jackson se levantou da cama e se aproximou da porta, uma mão com uma pistola atravessou a portinhola e executou o rival à queima-roupa.
Conforme a investigação, quem apertou o gatilho foi Brum, que estava escondido no corredor, mas o plano teria sido arquitetado pelos dois. Após alvejarem Jackson, os presos retornaram à cela 7, abandonando a arma no corredor.
A execução a tiros provocou uma algazarra entre os outros presos, que passaram a gritar. Do lado de número par, estavam os companheiros de Jackson, enquanto no oposto, ficavam os inimigos. O único agente no andar superior, que realizava a contagem, tinha pouca visão sobre o que acontecia debaixo de seus pés. Então, correu e pediu apoio aos demais policiais penais. Quando eles conseguiram ingressar na área, Jackson já estava morto.
Fonte: GZH


















