Cada vez mais se torna raro encontrar um estabelecimento comercial no estilo dos antigos bolichos. Para aqueles com mais de 40 anos, essas estabelecimentos despertam lembranças imediatas: a disposição dos produtos, os baleiros, a balança, a diversidade de objetos pendurados e, sobretudo, o atendimento feito pelo próprio proprietário.
Hoje, deparei-me com mais uma dessas relíquias que fazem parte da história de São Borja. Trata-se de um bolicho localizado na Rua Fausto Lourenço Aquino, atendido por seu proprietário, o senhor Américo Carneiro Fabrício de 80 anos. O local é repleto de lembranças e curiosidades que, para as gerações atuais, soam como novidade, enquanto para os mais antigos despertam um profundo saudosismo.
Ali ainda estão os pesos usados para medir o arroz, o feijão, a farinha e até o pedaço de mortadela produtos que hoje chegam prontos e embalados, mas que antigamente eram pesados um a um. O tradicional baleiro, impossível de não girar em busca do melhor doce, faz-nos viajar a um tempo de infância e simplicidade, a um período que não volta mais.
É necessário recordar esse tipo de comércio que, apesar de hoje conviver com mercadinhos bem sortidos e armazéns modernos, não perde a singularidade dos velhos boliches: seus balcões de madeira riscados pelo uso constante, o modo colonial de guardar mercadorias nas prateleiras e o ambiente acolhedor de quem conhece cada cliente pelo nome.
O proprietário, generoso e saudosista, contou ainda que seu estabelecimento pertenceu ao sogro Onorio José do Nascimento, que foi cabo do 14º Corpo Provisório da Brigada Militar. Relatou também que, naquele tempo, os Vargas teriam feito muito “retoço” no local, nos tempos de Bejo Vargas. O prédio, com mais de 150 anos, mantém viva boa parte das características originais da época.
Não há como passar pela frente e não se impressionar com sua disposição e autenticidade. Os bolichos embora escassos diante da modernidade, permanecem carregados de saudades e histórias fantásticas daqueles que vieram antes de nós e deixaram um legado de trabalho, perseverança e identidade na construção do povo de São Borja.
Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

















