Uma viatura Duster do policiamento ostensivo era usada por soldados da Brigada Militar para recolher propina semanal de R$ 5 mil do tráfico de drogas no bairro Santos Dumont, em São Leopoldo. A denúncia chegou ao comando regional da corporação no Vale do Sinos, que imediatamente encaminhou o caso à Corregedoria-Geral da Brigada Militar. Dois servidores foram presos em dezembro. Outros dois estariam sendo investigados. Os nomes, assim como a apuração, são mantidos sob sigilo.
Após reportagens do Grupo Sinos que revelaram o controle de uma facção criminosa sobre o condomínio Villa Germânica, no Santos Dumont, em outubro, começaram a surgir informações detalhadas sobre o envolvimento de policiais militares. A arrecadação, conforme as denúncias, vinha de cinco pontos de tráfico no bairro ligados ao grupo que dominava o conjunto habitacional de 890 apartamentos.
Tiro no celular
Os brigadianos do “arrego” eram conhecidos por fazer o patrulhamento noturno em uma viatura Duster com uma sinaleira queimada. Um deles, de 32 anos, é morador do Santos Dumont. Seria o elo da facção com colegas de farda. Ele e outro soldado foram presos preventivamente no dia 18 de dezembro. Duas semanas antes, havia dado um tiro no próprio celular em casa, para apagar provas, quando agentes da Corregedoria foram cumprir mandado de busca e apreensão.
Outra denúncia é que os investigados faziam apreensões de fachada. Recolhiam maconha e cocaína de baixa qualidade para mascarar a parceria com o tráfico não só de drogas, como também de armas. O material distribuído em parte de São Leopoldo teria como fornecedor um morador da Vila Palmeira, bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo, quase no limite entre as cidades.
Segundo Corregedoria, um envolvido já saiu da corporação
Conforme a Corregedoria, um soldado investigado saiu há poucos dias da corporação. “Não integra mais a Instituição, em razão de pedido de desligamento, permanecendo, ainda assim, o Conselho de Disciplina em andamento. O outro policial permanece agregado, afastado de todas as funções, respondendo a Conselho de Disciplina”, diz o órgão, por meio de nota.
A Corregedoria não especifica se quem saiu é o soldado que servia de elo com a facção. “Em razão de o inquérito encontrar-se em curso e tramitar sob sigilo, não é possível confirmar nomes, detalhes operacionais, medidas cautelares específicas ou circunstâncias relacionadas às diligências, tampouco antecipar conclusões ou comentar informações sensíveis.”
A Brigada frisa que “todas as providências administrativas cabíveis são adotadas de forma imediata e rigorosa sempre que há indícios de irregularidades, observando-se estritamente os procedimentos legais aplicáveis à fase investigativa, com respeito às garantias legais e à correta apuração dos fatos”.
Esquema dos policiais ruiu após intervenção em condomínio
Na noite de 19 de outubro, o Grupo Sinos publicava a primeira das reportagens que mostravam como a facção, representada pelo preso Eberson Ferreira Almeida, o Zoreia, 44, dominava o condomínio Villa Germânica.
O interesse pelo conjunto habitacional se dava pelo interesse financeiro nas mensalidades e negócios do próprio condomínio, que chegou a dever R$ 5 milhões em água, como também para guardar armas e drogas.
Em áudios enviados ao advogado que representava moradores descontentes, o traficante fazia ameaças de morte para que não ousassem mudar o síndico. Dizia que tinha fartura de celulares na cela da Penitenciária Estadual do Jacuí, em Charqueadas, e que recebia R$ 15 mil por mês do condomínio. Também afirmava que não tinha medo da polícia.
A reportagem, com os áudios impactantes, provocou revista na cadeia e dezenas de celulares foram apreendidos. Revoltados, colegas de galeria espancaram Zoreia, que foi isolado e depois transferido de penitenciária. Os pontos de tráfico que ele gerenciava em São Leopoldo foram repassados a outros três criminosos.
O Tribunal de Justiça, que havia decidido por eleição virtual para síndico no Villa Germânica, mudou de entendimento em razão da reportagem do Grupo Sinos. Determinou pela forma presencial e com todo aparato de segurança no foro de São Leopoldo, no dia 22 de outubro.
A modalidade virtual daria continuidade à gestão fraudulenta no condomínio, pois, conforme as denúncias, detinha votos por meio de procurações forjadas. Ao vencer o pleito, a nova administração rompeu no mesmo dia o contrato com a empresa de zeladoria, envolvida no esquema com a facção, entre outras reestruturações.
Também no dia 22 de outubro, o Comando Regional de Polícia Ostensiva do Vale do Rio dos Sinos (CRPO/VRS) recebeu denúncia do envolvimento de brigadianos no tráfico no Santos Dumont. A Corregedoria juntou provas e prendeu dois na manhã de 18 de dezembro. As investigações prosseguem.
Na manhã de 12 de novembro, a Polícia Civil desencadeou a Operação Villa Germânica, que prendeu oito suspeitos por extorsão, ameaça, apropriação indébita e associação criminosa. Entre os capturados estavam o advogado que atuava como síndico até a última eleição e o dono da zeladoria destituída poucos dias antes do condomínio.
Fonte: ABC+
















