Por: Jardel Tavares
Estava em casa e veio em pensamento esta indagação “por que será que tem tantas farmácias nas esquinas?”. Se você fechar os olhos agora e tentar visualizar um cruzamento movimentado no Centro de São Borja ou pelo Passo, as chances de você “enxergar” uma farmácia são gigantescas. Já notou como elas parecem brotar, quase que por mágica, exatamente nos ângulos retos das nossas ruas?
É claro que existem exceções. Ainda resistem aquelas farmácias no meio da quadra, mas basta um giro rápido para perceber que a regra do jogo mudou: em São Borja, a saúde (ou o comércio dela) tomou conta das esquinas.
Mas o que explica esse fenômeno? Não é coincidência e muito menos falta de opção de terreno. Existe um embasamento técnico por trás disso que o mercado chama de “Esquina Positiva”. Estar na esquina é, essencialmente, estar em dois lugares ao mesmo tempo. É dobrar a visibilidade para quem vem de direções opostas e garantir que o letreiro de LED seja o farol que guia o consumidor, especialmente à noite.
Além da visibilidade, há a questão da conveniência. No ritmo acelerado em que vivemos, a facilidade de estacionar e acessar rapidamente a loja é o que define onde vamos comprar o remédio ou aquele item de última hora. As farmácias deixaram de ser apenas postos de saúde para se tornarem centros de conveniência estratégica.
No entanto, essa ocupação massiva nos faz refletir: o que acontece com a identidade da nossa cidade quando as esquinas, historicamente pontos de encontro e de arquitetura diversa, passam a ter todas a mesma “cara” iluminada? Como jornalista e pesquisador, vejo que a farmácia na esquina virou o nosso novo marco geográfico, substituindo referências antigas da cidade.
Fica a indagação: será que estamos valorizando a saúde e a facilidade, ou estamos assistindo ao nosso espaço urbano ser moldado apenas pelo poder dos grandes grupos farmacêuticos? Na próxima vez que você dobrar uma esquina em São Borja, olhe com mais atenção. Talvez você perceba que, mais do que vender remédios, elas estão redesenhando a forma como a gente caminha e enxerga a nossa própria cidade.
Texto opinativo de responsabilidade do autor

Jardel Tavares é jornalista e mestrando em Comunicação e Indústria Criativa, pesquisador dedicado a entender as transformações do ecossistema digital e o fenômeno da desinformação. Com atuação estratégica na cobertura política da Fronteira Oeste, exerce a função de repórter no portal SB News, onde converte a complexidade dos bastidores públicos em informação de impacto para a comunidade de São Borja. Sua trajetória equilibra o rigor acadêmico com a agilidade do jornalismo local, focando no desenvolvimento de narrativas inovadoras que fortalecem o papel da comunicação.


















