Entre Urnas e OVNIs: A Copa que o Brasil esqueceu de torcer

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Foto: Gerado por IAG

Por: Jardel Tavares

A exatamente seis dias do início da Copa do Mundo de 2026, o silêncio nas ruas brasileiras é quase ensurdecedor. Para quem cresceu costurando bandeirinhas de plástico para esticar de um poste a outro e pintando o asfalto com cal e tinta guache, o cenário atual causa um estranhamento profundo. Onde está aquele frio na barriga coletivo? Onde foi parar a nossa capacidade de esquecer o mundo por noventa minutos?

A verdade é que o sentimento de torcedor ainda não conseguiu furar a bolha do cansaço social. Olhamos para o calendário e vemos o dia 11 de junho batendo à porta, mas nossos olhos teimam em desviar para as manchetes. Estamos imersos em um ano eleitoral pesado, exaustos de debates polarizados, e para coroar o surrealismo dos nossos tempos até discussões sobre objetos não identificados dividem nossa atenção nas redes. A realidade tem sido bizarra e urgente demais para nos dar o luxo da alienação festiva.

O brasileiro não perdeu o amor pelo futebol; perdeu o direito à leveza

Essa apatia não nasceu ontem. Ela é o resultado de um processo doloroso de desapropriação cultural. Nos últimos anos, assistimos à camisa da seleção e à nossa própria bandeira serem sequestradas, transformadas em uniformes de protestos e símbolos de divisões políticas. Pegaram o que era o nosso maior símbolo de pertencimento e transformaram em um manifesto de exclusão. Se você veste a amarelinha hoje, precisa calcular o contexto para não ser rotulado. 

O torcedor hoje está preocupado com o preço do mercado, com o próximo racha político e com a sensação de que o país está permanentemente em disputa.

Talvez, quando a bola rolar no México, nos Estados Unidos e no Canadá, o instinto fale mais alto e a gente solte aquele grito guardado na garganta. Mas, por enquanto, a Amarelinha continua guardada na gaveta. Não por falta de amor à seleção, mas porque o brasileiro está ocupado demais tentando redescobrir o que significa pertencer ao próprio Brasil.

O texto acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do portal.

Jardel Tavares é jornalista e mestrando em Comunicação e Indústria Criativa, pesquisador dedicado a entender as transformações do ecossistema digital e o fenômeno da desinformação. Com atuação estratégica na cobertura política da Fronteira Oeste, exerce a função de repórter no portal SB News, onde converte a complexidade dos bastidores públicos em informação de impacto para a comunidade de São Borja. Sua trajetória equilibra o rigor acadêmico com a agilidade do jornalismo local, focando no desenvolvimento de narrativas inovadoras que fortalecem o papel da comunicação.

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