Esses dias me deparei ouvindo Tempo Perdido, da Legião Urbana, e fui transportado para a rua onde cresci: a Rua Cabo Pedroso, em São Borja. Imediatamente vieram à memória os parentes, vizinhos, os tantos amigos que moravam ali e aqueles que vinham de outras regiões para jogar taco, futebol ou brincar de esconde-esconde.
Eram momentos mágicos. Naquela época, eu acreditava que nunca acabariam.
Tenho como hobby colecionar objetos antigos que me remetem àquele tempo. Mas, quando falo em reviver o passado, não é por saudade dos anos 80 ou dos anos 90. A saudade é das pessoas que fizeram parte daquela trajetória. Pessoas que preenchiam nossos dias com idas à escola, conversas que atravessavam a madrugada e uma convivência tão intensa que parecia impossível imaginar a vida sem elas.
Faziam parte da paisagem da minha existência. Eu acreditava que cresceríamos juntos e chegaríamos lado a lado ao futuro. Mas a vida tem seus próprios caminhos. Cada um seguiu seu rumo. Alguns mudaram seus sonhos, outros seus objetivos. Alguns mudaram de cidade, e outros já não estão mais entre nós.
O mais curioso é que certas pessoas nunca deixaram nossas vidas por completo. Permanecem vivas nas músicas que ouvimos, nos lugares por onde passamos e nos pequenos detalhes que, de repente, despertam uma lembrança adormecida.
Talvez esteja aí a poesia de Tempo Perdido, de Renato Russo. O valor da vida não está apenas nos acontecimentos que marcaram nossa caminhada, mas principalmente nas pessoas que passaram por ela e ajudaram a construir quem somos.
Por isso gosto de recordar conversas e revisitar memórias. Não para viver preso ao passado, mas para reconhecer aqueles que contribuíram para a minha formação como ser humano. Não sou saudosista, nem alguém que junta cacos do que já passou. Procuro apenas resgatar os alicerces da minha história para seguir adiante nesta jornada que é a vida.
Hoje entendo que o tempo não levou tudo aquilo que construímos. Pelo contrário: ele transformou experiências em memórias e as guardou para que possamos continuar caminhando.
Minha rua mudou. A infância passou. Os moradores seguiram seus destinos. Cada um encontrou seu próprio caminho. Ainda assim, guardo com carinho as aventuras, as alegrias e os aprendizados daqueles dias que, na inocência da juventude, imaginei que durariam para sempre.
E talvez tenham durado. Não da forma que eu esperava, mas naquilo que realmente importa: nas memórias que produzimos e carregamos conosco por toda a vida.
Isaac Carmo Cardozo é Tenente da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.


















