O Megafone de Sofá: Por que opinamos tanto e construímos tão pouco?

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Foto: Ilustração / IA

Por: Jardel Tavares

O artigo 5º da nossa Constituição garante a livre manifestação do pensamento. É um pilar da democracia. No entanto, o que a nossa Carta Magna não previu e nem poderia foi a transformação desse direito em uma espécie de obsessão coletiva alimentada pelas redes sociais. Hoje, parece existir um mandamento invisível no mundo digital: “Opine sobre tudo, o tempo todo, mesmo que você não saiba nada sobre o assunto”.

Sentimos uma necessidade quase visceral de expor certezas. Mas a pergunta que raramente fazemos antes de clicar em “publicar” é: a minha opinião vai agregar na vida de alguém ou serve apenas para massagear o meu próprio ego?

O debate público nas plataformas digitais adoeceu. O que deveria ser troca de ideias virou um tribunal de linchamento virtual, onde o outro é atacado simplesmente por pensar diferente ou escolher um jeito distinto de viver. Essa agressividade não é sinal de um debate forte; é o sintoma de uma sociedade exausta. O filósofo Byung-Chul Han cunhou o termo “Sociedade do Cansaço” para definir a nossa era de esgotamento mental. Nas redes, esse cansaço se traduz em intolerância: o ódio digital funciona como uma válvula de escape para frustrações diárias. O algoritmo, que lucra com o nosso estresse, agradece. Enquanto nos desgastamos atacando o vizinho de feed, a engrenagem continua moendo nossa saúde mental.

Esse cenário gera um paradoxo fascinante e incômodo quando olhamos para a nossa própria realidade aqui em São Borja.

Atualmente, a Câmara de Vereadores está propondo a Agenda 2040, promovendo reuniões mensais para que a comunidade ajude a planejar e construir a cidade que queremos para as próximas décadas. É o espaço deliberativo, legítimo e democrático. É a chance de evitar que, daqui a dez ou vinte anos, estejamos reclamando dos mesmos problemas estruturais.

No entanto, quem costuma ocupar as cadeiras dessas reuniões? Um grupo restrito de acadêmicos e pessoas que já têm o hábito de pensar o futuro do município.

Onde está aquela multidão de “especialistas” em gestão pública, educação e infraestrutura que despeja parágrafos furiosos e soluções mágicas nas caixas de comentários do Facebook e do Instagram?

A verdade é dura, mas precisa ser dita: é infinitamente mais confortável ser um revolucionário de sofá, digitando críticas ácidas no conforto do lar, do que atravessar a rua, sentar-se à mesa com quem pensa diferente e negociar o futuro da nossa comunidade. A internet nos deu a ilusão de que falar é o mesmo que fazer. Não é. Opinião sem ação é apenas barulho.

Ter direito a uma opinião não significa que ela precise ser vomitada no mundo, especialmente se o seu único combustível for a rejeição ao que é diferente. Se a nossa fala não constrói, não educa e não agrega, o melhor destino para ela é o silêncio respeitoso.

Se queremos uma São Borja melhor, precisamos trocar o megafone digital pela presença real. O futuro da nossa cidade está sendo desenhado na Câmara, nas urnas e nos projetos coletivos e não na seção de comentários. Saiamos do teclado. A sociedade, exausta de tanto barulho e tão pouca prática, agradece.

O texto acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do portal.

Jardel Tavares é jornalista e mestrando em Comunicação e Indústria Criativa, pesquisador dedicado a entender as transformações do ecossistema digital e o fenômeno da desinformação. Com atuação estratégica na cobertura política da Fronteira Oeste, exerce a função de repórter no portal SB News, onde converte a complexidade dos bastidores públicos em informação de impacto para a comunidade de São Borja. Sua trajetória equilibra o rigor acadêmico com a agilidade do jornalismo local, focando no desenvolvimento de narrativas inovadoras que fortalecem o papel da comunicação.

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