A Diocese de Caxias do Sul, constituída por 32 municípios da Serra, nomeou oficialmente seu primeiro padre exorcista. Daniel D’Agnoluzzo Zatti, 38 anos, pároco da Igreja São Ciro, assumiu a função no início de julho e já tem fila de espera de até um mês para o serviço que, na explicação do religioso, está mais vinculado à orientação dos devotos do que às emblemáticas cenas de possessão dos filmes.
Como primeira tarefa à frente do Ministério do Exorcismo, Zatti montou uma equipe com profissionais, sobretudo da psiquiatria, psicologia e neurologia (comitê científico), e criou uma secretaria para receber os atendimentos. Ao todo, 12 pessoas integram o setor.
A maior parte da demanda, conforme o padre, é respondida por meio de um trabalho de discernimento da origem do sofrimento do paciente. Por isso, há uma equipe médica para suporte especializado nos diagnósticos e diferenciação de doenças psíquicas.
— A minoria dos casos, em torno de 5% a 10%, exige o acompanhamento do Ministério do Exorcismo. A grande maioria sai de um primeiro acolhimento com a certeza de que não é influenciada por uma ação extraordinária do demônio — garante.
O sacerdote é guiado pelo rito oficial de exorcismo, publicado pelo Vaticano em 1998 — em atualização a um protocolo de 1614. O texto prevê critérios para identificar a atuação de espírito maligno sobre uma pessoa, como: falar em idiomas desconhecidos pelo paciente; proferir informações em princípio inacessíveis; demonstrar força física incompatível; e ter aversão a símbolos sagrados.
— Por exemplo, o padre perdeu a mãe e está enlutado, e o demônio identifica isso com sua inteligência superior. Ou uma criança movimenta ou ergue pesos que um adulto não conseguiria. Falamos de situações que visivelmente fogem do alcance humano — diz Zatti, e acrescenta:
— O discernimento não é simples, não há uma fórmula matemática que nos dá uma resposta objetiva. Ele também parte de uma leitura global da vida da pessoa.

A possessão é o tipo mais conhecido de ação extraordinária e possivelmente o mais grave por envolver quadros de surto. Outras situações tradicionais do tema são: obsessão, quando o paciente não consegue se desvencilhar de ideias perturbadoras; vexação, caracterizada por machucados e hematomas inexplicáveis no corpo; e infestação, que envolve lugares, objetos ou animais sob influência do demônio.
O padre detalha que o ritual de exorcismo é composto principalmente por uma oração litúrgica, como a Ladainha de Todos os Santos, e dura cerca de 30 minutos. Aautoridade religiosa conduz os dizeres, como “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós”, e os demais presentes os repetem.
O local é preparado com objetos que identificam a fé: crucifixo, remetendo a Jesus Cristo, água benta e imagem da Virgem Maria. Além da equipe do Ministério do Exorcismo, testemunhas participam da cerimônia para prevenir que aconteçam simulações por falsas vítimas de ação extraordinária. O endereço onde acontece o ato e a identidade do paciente são mantidos em sigilo.
Segundo Zatti, o exorcismo, quando necessário, é executado de maneira repetitiva, como a cada duas semanas por determinado período, para a libertação completa do mal:
— Esses elementos fazem com que se torne insuportável a súplica por parte do inimigo. Tudo aquilo que temos de um cenário hollywoodiano em nosso imaginário é importante que seja rompido, porque é um ritual muito lúcido e sereno. O exorcismo faz bem, é do bem e não pode ser assumido como uma coisa esquisita. É uma ação de misericórdia da igreja.
O único caso conhecido na Serra
Até hoje, o único caso de exorcismo registrado oficialmente pela Diocese de Caxias do Sul remonta ao ano de 1947. O ritual foi executado pelo padre Teodoro Portolan, que teria expulsado o demônio de uma mulher a pedido do bispo Dom José Barea, em Farroupilha.
O ritual teve, dizem os registros, orações especiais, bênçãos com água benta, sinal da cruz com o crucifixo, leituras de trechos do Evangelho, ordens de expulsão e diálogo ríspido e violento entre o sacerdote e o suposto espírito maligno. Todo o processo durou cerca de oito horas.
— O padre Teodoro utilizou o rito antigo, de 1614, que tinha tonalidades um tanto mais diretas, como orações de expulsão do demônio, bem diferente da nova abordagem, que é de 1998. Esta pessoa, antes possessa, foi liberta e depois levou uma vida muitíssimo melhor — comenta Zatti.
A história pode ser revisitada no Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, que preserva a sala Livrai-nos do Mal, onde teria acontecido o ritual de exorcismo da década de 1940. O espaço guarda relatos de testemunhas em livro e grades de uma janela que, segundo a crença, foram retorcidas durante a cerimônia de expulsão do demônio.
União entre Teologia e Ciência
Zatti foi nomeado padre exorcista pelo bispo Dom José Gislon no último dia 6 de julho em razão da sua capacidade de reunir conhecimentos teológicos e científicos.
O pároco é doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS), com período de pesquisa nos Estados Unidos, e defenderá a tese no início do próximo ano. É mestre em Teologia e bacharel em Filosofia pela mesma instituição, e formou-se em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
— Minha caminhada de fé começa com um pé nas ciências empíricas. Tenho um livro que é fruto da minha dissertação sobre Física Quântica e Teologia. E desenvolvi minha tese sobre milagres como um ponto de toque entre Teologia e Ciências Naturais — afirma.
Zatti é sacerdote da Diocese de Caxias desde 2016. A função como padre exorcista será exercida por tempo indeterminado juntamente com as demais responsabilidade de pároco da Igreja São Ciro.
— A criação do Ministério do Exorcismo é resposta a um volume de procura, não de possessões demoníacas, mas de pedidos. Estou com a agenda cheia, a fila de espera é de mais ou menos um mês. Quem procura hoje vai ficar um mês esperando para ser atendido — diz o sacerdote.
Ele adianta, ainda, que no ano que vem vai a Roma, na Itália, como parte complementar de formação no rito de exorcismo.
O serviço está à disposição pelo telefone/WhatsApp (54) 9 9999-5606 e pelo e-mail exorcismo@diocesedecaxias.org.br.
Fonte: GZH


















