Entre peças antigas, objetos históricos e lembranças de outros tempos, o antiquário preserva histórias, resgata memórias e mantém viva a nostalgia de gerações.
Quem olha para Ademir Castro Bertin talvez não imagine que, por trás de sua figura, encontra-se um homem que há mais de 40 anos se dedica à busca por antiguidades e à preservação de objetos que carregam consigo fragmentos da história. Aos mais de 70 anos, ele mantém em São Borja um acervo que é um verdadeiro convite a uma viagem pelo passado, especialmente para aqueles que apreciam a nostalgia e reconhecem o valor dos objetos de outras épocas.
Tive a grata satisfação de conhecer seu acervo e conversar com esse apaixonado pelo universo das antiguidades. Durante nosso encontro, Ademir revelou que, ao longo de sua trajetória, realizou inúmeras viagens a São Paulo e ao Rio de Janeiro com o objetivo de garimpar peças que pudessem chegar às mãos de colecionadores. Também buscou antiguidades na Argentina, ampliando seu repertório e reunindo objetos que hoje fazem parte de seu estabelecimento.
Uma frase dita durante nossa conversa chamou particularmente minha atenção. Ao perguntar se ele se considerava um colecionador, Ademir respondeu que não. Ele se considera um antiquário, alguém cuja missão é servir aos colecionadores, encontrando e disponibilizando peças que despertem o interesse daqueles que valorizam a história e a memória material.
Essa diferença ajuda a compreender a essência de seu trabalho. Enquanto o colecionador procura reunir e preservar objetos de seu interesse, o antiquário precisa, muitas vezes, desapegar-se das peças que encontra, pois sabe que elas poderão ganhar um novo significado nas mãos de outra pessoa. Seu papel é garimpar, conhecer, preservar e fazer circular esses fragmentos do passado.
Ao visitar sua residência, é difícil saber para onde olhar primeiro. Praticamente todos os espaços revelam alguma surpresa: livros, abajures, esporas, facas, brinquedos infantis, peças de prataria, talheres, quadros, discos de vinil, panelas, geladeiras antigas, móveis e utensílios de cozinha de marcas que já não existem ou que há muito deixaram de fazer parte do cotidiano.
Também estão presentes objetos ligados à tradição gaúcha, como fivelas, facas, estribos e peças de louça, além de rádios, armários e tantos outros artigos que nos transportam para diferentes períodos da história. São objetos que, para algumas pessoas, podem parecer ultrapassados, mas que, para outras, representam lembranças afetivas, identidade cultural e um patrimônio de valor inestimável.
Em cada peça apresentada, Ademir demonstra conhecimento e entusiasmo. Não se limita a mostrar os objetos: procura contar suas histórias, explicar suas características e, quando conhece essa informação, revelar um pouco sobre as pessoas que os possuíram. É justamente essa capacidade de dar contexto às antiguidades que torna a visita ainda mais interessante. Afinal, um objeto antigo não representa apenas sua utilidade original; ele também pode testemunhar hábitos, costumes e modos de vida de outras gerações.
Entre os itens que chamam a atenção, encontram-se fotografias históricas que Ademir conseguiu durante suas buscas no Rio de Janeiro, incluindo registros de João Goulart, presidente do Brasil entre 1961 e 1964, e peças relacionadas à memória de Getúlio Vargas. Conservadas com cuidado, essas imagens nos aproximam de personagens e acontecimentos que marcaram a trajetória política brasileira e que possuem uma ligação especial com São Borja.
A atuação de Ademir também ultrapassa as fronteiras do município. Por meio de grupos e contatos especializados, ele consegue alcançar pessoas de outras regiões e até de outros países, aproximando objetos e interessados que compartilham o mesmo apreço pelas antiguidades. Essa rede de contatos demonstra como o universo do colecionismo une pessoas de diferentes lugares em torno de uma paixão comum.
Outro aspecto interessante de seu trabalho é a origem de muitas peças. Em diversas situações, os objetos chegam até ele por meio de familiares que, após a perda de seus entes queridos, optam por dar um novo destino aos pertences que permaneceram. O antiquário, então, assume a tarefa de encontrar alguém que reconheça o valor daquele bem e queira preservá-lo. O que antes fazia parte da rotina de uma família pode, assim, tornar-se uma recordação importante para outra pessoa.
Quem visita o acervo encontra muito mais do que mercadorias. Encontra lembranças de uma infância povoada por brinquedos, coleções de tampinhas de garrafa, utensílios domésticos e tantos outros objetos que, em algum momento, fizeram parte de nossas vidas. Alguns nos recordam coisas que tivemos; outros, aquelas que desejávamos possuir, mas que estavam fora de nosso alcance. Ao reencontrá-los, somos convidados a revisitar experiências, pessoas e momentos que o tempo não apagou por completo.
Acredito que Ademir Castro Bertin seja uma importante referência em São Borja quando se trata de antiguidades. Seu trabalho contribui para manter vivo o interesse por objetos que ajudam a compreender o passado e que, muitas vezes, carregam histórias familiares e culturais que merecem ser preservadas.
Mas a personalidade de Ademir não se resume ao universo das antiguidades. Ele também é poeta e estará lançando, durante a Feira do Livro, sua obra Poemas da Minha Vida, publicada pela Editora Conceito. Essa faceta literária revela outro lado de um homem que, além de valorizar as memórias materializadas em objetos, também encontra na palavra escrita uma forma de expressar sentimentos, experiências e reflexões.
Conhecer Ademir Castro Bertin é perceber como a cultura de São Borja é rica em personalidades que, por meio de suas atividades, contribuem para preservar nossas referências e fortalecer os vínculos entre passado e presente.
Em uma época marcada pelo consumo rápido e pela substituição constante dos bens, o trabalho de um antiquário nos ensina que nem tudo perde seu valor com o passar dos anos. Pelo contrário: há objetos cujo significado cresce à medida que o tempo avança, pois eles guardam lembranças, representam épocas e ajudam a contar histórias.
Preservar a memória daqueles que vieram antes de nós é uma forma de respeitar nossas origens. Nesse sentido, a atividade de Ademir Castro Bertin possui grande relevância para a comunidade são-borjense. Seu acervo é um espaço de reencontro com o passado, de valorização da história e de descoberta de um patrimônio que continua despertando curiosidade e emoção.
Afinal, cada antiguidade tem algo a nos dizer. Basta encontrar alguém que conheça sua história e esteja disposto a compartilhá-la. Em São Borja, Ademir é uma dessas pessoas que transformam o simples ato de garimpar objetos antigos em uma verdadeira missão de preservação da memória.
Fonte: SB News

















