Coluna de Ricardo Filtz – Alfinete de Segurança (ou sobre o sacrifício em confiar) 

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Foto: Reprodução

Ricardo Fitz Uma jovem mulher, mês passado durante a prática de um esporte radical, foi jogada de uma ponte sem estar presa, ‘amarrada’ a uma corda própria (segurança) para tal prática. Ela foi lançada para a morte com diversos espectadores, inclusive isso sendo gravado através de celulares. Um Absurdo! Uma insanidade que denuncia o adoecimento de uma sociedade. Naquele mesmo mês também tivemos o julgamento “finalizado” do Dr. Jairinho e Monique mãe do menino Henry Borel de 4 anos, assassinado, onde um dos envolvidos recebeu o polêmico ‘Perdão Judicial’. Ministério Público e defesa de Jairinho recorreram dessa decisão, contestando a forma como a magistrada conduziu as perguntas (quesitos) aos jurados. O pai de Henry também anunciou que vai recorrer da decisão de Perdão.

Na verdade, no Brasil nós somos vítimas de péssimos prestadores de serviços. Desde o Funcionalismo Público, do mais ‘Alto Clero’ ao trabalhador informal possivelmente viciado em alguma substância ilícita. Na cultura do ‘Extrativismo’, se extrai riquezas, e isso é o que o ‘jeitinho brasileiro’, a Malandragem e a Corrupção ‘Brasilesca’ faz de melhor, sobretudo o Estado com seus ‘cinco’ poderes. O custo? O sangue de alguém! Um amigo, me disse: “Tudo Culpa do Bolsonaro e do Lula que aprenderam a dominar o eleitor pelo mal, quanto mais quem eu odeio se dar ‘mal’ melhor!”. Há aqueles que possam ficar injuriados com minhas declarações generalistas aqui, é verdade, no entanto confio muito naquela máxima da cruz: “os justos pagam pelos pecadores”. Uma mulher foi jogada para a morte! Uma criança foi assassinada e o cúmplice recebeu perdão judicial! E seriam minhas opiniões “generalistas’ um problema?

O Estudo do Erotismo, da libido sexual no psiquismo, da dimensão do desejo e das fantasias é algo imprescindível para o entendimento do sofrimento humano e a escuta clínica. O que seriam práticas sexuais não convencionais? Seria tudo aquilo que está para além do ‘papai e mamãe’, do sexo de manutenção do casamento. Há aquele ditado popular: “quem não dá assistência abre concorrência”. Não acho que insegurança sexual deva ser capitalizada a esse ponto. Não acho que viver em uma paranoia da concorrência resolva a vida sexual das pessoas. Mas pensei ser importante dar essa alfinetada de provocação já que estamos falando de segurança.

O‘Shibari’, arte milenar japonesa de Amarração com Cordas, da suspensão dos corpos e da posição do dominador e do submisso diz de uma proposta de intimidade, tensão e estética sensual. Aquele que domina conduz a prática sobre aquele que se submete ser amarrado e muitas vezes imobilizado. Os praticantes, integrantes da comunidade que vivem essas experiências precisam estar cientes das diretrizes: Divertido, Consensual e Seguro.

O que coloco em contraste aqui é que após estudar a sexualidade humana; seu exercício e sua dessexualização, pude constatar que muitas práticas não convencionais proporcionam mais segurança, transparência e compreensão entre os seus participantes do que relações conjugais, convencionais, religiosas, cartorárias e de prestações de serviços. Pois para o sujeito entrar em convenções sociais moralmente aceitas a primeira coisa que ele trai eticamente, reprime imaginariamente e se priva em função da conservação é o seu próprio erotismo.

Escutei uma crítica muito importante a respeito desse caso absurdo da moça jogada, onde uma mulher sensível mas não menos sagaz aponta que: “fica parecendo que a culpa foi dessa moça por confiar demais”. Eu mesmo pude constatar que muitas publicações nas redes sociais estavam “usando disso” para dizer a você para não confiar em ninguém, como se o ato de confiar fosse algo ruim, ignorante e desaprovável em nossa sociedade, cultura e sobretudo nos relacionamentos.

Vocês percebem o perigo? Se não pudermos mais confiar em ninguém, então acabou! Ao olhar para praticas sexuais não convencionais, seja estudando o mestre ‘Bataille’, seja ouvindo os sofrimentos dos pacientes, pude constatar algo do âmago da condição humana: somente os Heróis, os Loucos e os Inocentes são capazes de fazer isso, confiar e entregar-se em detrimento de si próprios. Se não pudermos confiar em mais ninguém, então vivemos na selvageria instintual.

Confiar e se entregar até mesmo em sacrifício é a coisa mais humana que você pode fazer nos dias de hoje.

Psicanalista – @fitz_psicanalista

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