Coluna: O Engraxate que Salvou João Goulart

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Por: Isaac do Carmo Cardozo – Colunista

Este fato, que preciso compartilhar, me foi relatado por volta de 2018. Naquela ocasião, conheci o senhor Ramão Ferreira Almeida (já falecido) e sua esposa, Mirian Fernandes Alderete, quando eles traziam seu filho Ayrton para participar da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Conversando com eles, manifestei meu interesse pela história de nossa terra. Foi então que o senhor Ramão me contou que havia trabalhado como capataz do então presidente da República, João Goulart, no Uruguai, durante o período em que este esteve exilado. Inclusive, Jango foi padrinho de casamento do casal.

Falar com alguém que conviveu tão de perto com João Goulart no exílio despertou em mim uma enorme curiosidade. Marquei um encontro para ouvir suas memórias e os causos envolvendo aquele que fora nosso presidente.

O motivo que trouxe aquele casal de volta a São Borja era profundamente simbólico: o senhor Ramão, natural desta terra, desejava passar seus últimos dias em sua cidade natal, acompanhado da fiel companheira, dona Mirian.

No meio de tantas histórias, uma me chamou particularmente a atenção: a história do engraxate que salvou a vida de João Goulart.

João Goulart era frequentador assíduo dos cassinos na cidade de Maldonado, no Uruguai, hábito que mantinha quase diariamente. Em uma dessas noites, que parecia ser apenas mais uma, um menino engraxate — que já conhecia Jango, pois costumava lustrar seus sapatos — ouviu, por acaso, um grupo planejando assaltar o ex-presidente.

Ao perceber a gravidade da situação, o menino não hesitou: correu até o cassino, entrou e alertou Jango sobre o plano criminoso. Imediatamente, João Goulart tomou providências, solicitando apoio policial e conseguindo evitar o assalto.

Extremamente grato pelo gesto de coragem e lealdade, João Goulart quis retribuir. O nome do jovem era Alfredo Perez, que, na época, tinha cerca de sete anos. O episódio ocorreu por volta de 1966.

A partir desse dia, Alfredo passou a viver na fazenda de João Goulart, que possuía quase 13 mil hectares, e desenvolveu um grande carinho por ele. Jango cuidou do menino como se fosse seu próprio filho: providenciou atendimento odontológico, matrícula na escola e todo o cuidado necessário.

Alfredo tornou-se companheiro inseparável de Jango, inclusive nas viagens que ele fazia de avião até Punta del Este. Um fato curioso é que João Goulart só partia depois que Alfredo acordava — fazia questão de tê-lo sempre ao seu lado.

Após a morte de João Goulart, em 1976, o casal Ramão e Mirian permaneceu na fazenda por mais três meses. No entanto, diante do clima de tensão, da movimentação causada pela morte e, segundo eles, até pela presença incomum de “aves de rapina” sobrevoando o local, decidiram deixar a propriedade. Alfredo, por sua vez, permaneceu na fazenda por algum tempo.

Dona Mirian conta, com tristeza, que, em determinado dia, Alfredo chegou à sua casa a cavalo, carregando mochilas e em prantos. Mal acreditava no que estava acontecendo. Alfredo havia sido “corrido” da fazenda por pessoas que apareceram após a morte de Jango. Permaneceu com eles por um período, até conseguir um emprego em outra fazenda, onde passou a trabalhar.

João Goulart era uma pessoa simples e humilde. Fazia muitas de suas refeições sentado no pedestal da porta de sua casa na fazenda — muitas vezes, comendo na própria panela — sempre acompanhado de Alfredo, seu amigo e companheiro fiel. Essa convivência durou aproximadamente dez anos.

Dona Mirian lembra, com carinho, que os únicos que podiam entrar nos aposentos de Jango eram ela e Alfredo. Isso porque havia um cachorro de guarda chamado Sinatra, que era extremamente apegado a João Goulart e não permitia que ninguém se aproximasse dele. Curiosamente, o cachorro conseguia reconhecer o som dos aviões e sabia exatamente qual era aquele que trazia Jango de volta à fazenda.

Após a morte de João Goulart, Sinatra ficou deitado embaixo de uma mesa, onde permaneceu até morrer — de saudade e solidão, como relatam.

Quanto a Alfredo, nunca mais se teve notícia precisa. Sabe-se apenas que formou uma família e, provavelmente, foi morar na região de Maldonado. Seu paradeiro permanece, até hoje, desconhecido.

Dona Mirian lembra, com tristeza, daquele menino que foi mais que um companheiro: foi um verdadeiro amigo de João Goulart no exílio, muitas vezes mais presente que aqueles que, hoje, tentam sobreviver à sombra do nome e do legado que Jango deixou.

Isaac Carmo Cardozo é 1°Sargento da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.

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