Recentemente tive conhecimento de um estudo que aponta a suposta apropriação cultural de grafismos indígenas pelo gaúcho, no seu uso junto a indumentária. Segundo os pesquisadores, elementos presentes em peças da indumentária gaúcha, como o chiripá, os ponchos e até mesmo adornos utilizados em boleadeiras, apresentam grafismos inspirados na cultura dos povos originários da região, especialmente dos Kaingang.
O estudo afirma que a maioria dos não indígenas desconhece a origem e o significado desses desenhos, utilizando-os apenas como elementos decorativos. Além disso, sustenta que tais grafismos são empregados sem referência à sua origem e sem qualquer retorno financeiro aos seus criadores.
Ao final, os autores concluem que os grafismos Kaingang representam uma herança cultural milenar e que sua utilização pela cultura gaúcha constituiria uma apropriação para fins mercadológicos. Defendem, inclusive, mecanismos de proteção intelectual e a cobrança de royalties sobre seu uso.
Entretanto, esse debate merece uma análise mais ampla e histórica.
A identidade gaúcha não surgiu pronta nem foi criada por um único povo. Ela é resultado de um longo processo de formação social, cultural e étnica que envolveu indígenas, portugueses, espanhóis, africanos e, posteriormente, imigrantes alemães, italianos e diversos outros grupos que contribuíram para moldar a cultura do Rio Grande do Sul.
A própria indumentária gaúcha é um exemplo dessa construção coletiva. O chiripá, por exemplo, possui raízes indígenas e platinas. O poncho está presente em diferentes povos da América do Sul. O uso do cavalo, do laço, da faca, das botas, do chapéu e até mesmo de determinados padrões decorativos resulta de séculos de intercâmbio cultural entre os habitantes dos pampas, da Cordilheira dos Andes, da Patagônia, do atual território argentino, uruguaio e sul-brasileiro.
Diante disso, cabe uma reflexão: se determinados grafismos possuem origens ancestrais compartilhadas por diferentes povos sul-americanos, seria correto atribuir sua exclusividade a um único grupo? E, caso um povo tenha incorporado elementos culturais de outros ao longo da história, estaríamos diante de apropriação ou de um processo natural de construção cultural?
O gaúcho nasceu justamente dessa miscigenação. Sua identidade foi sendo transformada ao longo dos séculos. Historiadores e pesquisadores da indumentária costumam dividir essa trajetória em quatro períodos: as Primícias do Gaúcho (1730-1820), o Charqueador (1820-1865), a Transformação do Gaúcho (1865-1950) e o Gaúcho Contemporâneo (1950 até os dias atuais).
Muitos dos elementos visuais hoje associados ao tradicionalismo surgiram ou se consolidaram apenas na fase contemporânea, resultado de influências acumuladas durante gerações. Não são fruto de uma única cultura isolada, mas de uma construção coletiva que caracteriza a própria essência do gaúcho.
Reconhecer a contribuição indígena para a formação do Rio Grande do Sul é não apenas justo, mas necessário. Os povos originários tiveram papel fundamental na constituição dos costumes, da linguagem, da culinária, da lida campeira e da própria identidade regional. Contudo, reconhecer essa contribuição não significa afirmar que toda manifestação cultural derivada dessas influências pertença exclusivamente a um único grupo.
Se cada elemento presente na formação do gaúcho passar a ser reivindicado isoladamente por uma de suas matrizes culturais, corre-se o risco de fragmentar uma identidade que nasceu justamente da integração dessas diferentes heranças.
O gaúcho é resultado de muitas raízes. Entre elas, sem dúvida, está a indígena. Por isso, afirmar que a presença desses símbolos na cultura gaúcha configura necessariamente apropriação cultural parece ignorar o próprio processo histórico que deu origem à identidade gaúcha. Mais do que apropriação, trata-se de uma herança compartilhada, construída ao longo dos séculos por todos aqueles que contribuíram para formar o povo do Rio Grande do Sul.

Isaac Carmo Cardozo é Tenente da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.


















