São-borjense relata rotina na guerra da Ucrânia: “É muito fácil morrer”

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Foto: Reprodução

Natural de São Borja e com passagem marcante por Santa Maria, o brasileiro Caynã Gindri vive atualmente uma realidade extrema em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia. Atuando como médico de combate na infantaria ucraniana, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao jornalista Michel Azevedo, relatando episódios de tensão, sobrevivência e humanidade em uma das regiões mais perigosas do planeta.

Formado em Enfermagem pela FISMA e técnico em enfermagem, Caynã trabalhou em Santa Maria na UPA, BioSante e também no Hospital da Brigada Militar. Segundo ele, toda a experiência adquirida no Rio Grande do Sul foi fundamental para desempenhar a função que exerce hoje na linha de frente do conflito.

“Eu sempre senti necessidade de viver algo maior do que a rotina comum. Meu avô esteve na Segunda Guerra Mundial e eu cresci ouvindo as histórias dele. Também pesou muito a questão profissional. Tudo que vivi trabalhando em Santa Maria me deu conhecimento para exercer minhas funções aqui como médico de combate”, contou.

Ele afirmou que a decisão de ir para a guerra foi construída ao longo do tempo e não aconteceu por impulso.

“Foi algo que amadureceu dentro de mim por bastante tempo. Foi um chamado de que eu deveria estar aqui.”

Mesmo distante do Brasil, o gaúcho afirma carregar diariamente as raízes do Rio Grande do Sul. Durante a entrevista, um dos relatos mais impactantes aconteceu quando descreveu a rotina em Zaporizhzhia, cidade próxima da linha de frente da guerra.

“Tu aprende a valorizar as pequenas coisas básicas, como comer, dormir e até ir ao banheiro. O que é constante são os ataques com drones. O pior não é só o som deles se aproximando, mas o som das explosões e das defesas antiaéreas tentando derrubá-los antes que atinjam a cidade.”

Caynã também relembrou um dos momentos mais dramáticos que viveu durante o conflito. Segundo ele, um blindado M113 onde estavam dez soldados foi atacado por drones, atingido por minas terrestres e acabou despencando de uma ponte.

“Metade teve fraturas. Dentro do blindado era o pior lugar para estar. E mesmo depois da queda, os drones continuavam vindo. A gente tinha poucos minutos para sair dali ou morrer.”

Mesmo ferido, ele decidiu voltar ao veículo para salvar um companheiro que havia ficado preso.

“A decisão mais difícil da minha vida foi entrar de novo naquele blindado sabendo que poderia não sair mais dali. Mas conseguimos retirar ele vivo.”

Em outro trecho emocionante da entrevista, o brasileiro contou sobre uma conversa que teve com uma senhora ucraniana. Segundo ele, através de um tradutor, explicou que era nascido em São Borja e que Santa Maria era sua cidade do coração.

“Aí perguntei como ela conseguiu se acostumar com a guerra. E ela respondeu que precisava se acostumar, porque a guerra estava ali e ela não tinha para onde ir. Depois ela me agradeceu por eu ter vindo do outro lado do planeta ajudar o povo dela.”

Apesar da rotina intensa e do perigo constante, ele admite que já pensou em desistir.

“Quem diz que nunca pensou está mentindo. Dá saudade da família, da paz do Brasil. Mas eu vim com o propósito de ajudar.”

Outro detalhe curioso revelado por Caynã é a presença de diversos gaúchos atuando como voluntários na Ucrânia. Segundo ele, apenas na unidade onde está atualmente existem mais de dez gaúchos lutando juntos.

E mesmo em meio à guerra, algo simples acaba aproximando os brasileiros diariamente: a saudade do chimarrão.

“O que o pessoal mais reclama aqui é da falta de erva-mate. A saudade de sentar e tomar um mate é muito grande.”

Ao encerrar a entrevista, ele resumiu de forma direta a realidade enfrentada diariamente no conflito.

“Isso aqui não é Instagram nem filme. É real. E é muito fácil morrer.”

A reportagem exclusiva assinada pelo jornalista Michel Azevedo traz um relato forte, humano e emocionante sobre a trajetória de um são-borjense que deixou o interior do Rio Grande do Sul para viver uma das guerras mais violentas da atualidade.

Fonte: Site SB News

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