Suspensão da vacina da dengue expõe controle rígido, mas pode reforçar discurso contra imunização

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Nova Lima, em Minas Gerais, foi um dos municípios que recebeu doses da vacina contra a dengue em janeiro WILL GONCALVES / Prefeitura de Nova Lima

A paralisação da aplicação da vacina do Instituto Butantan contra a dengue, anunciada na segunda-feira (8) pelo Ministério da Saúde, pode ocasionar dois efeitos de percepção na sociedade brasileira.

Na avaliação de especialistas em infectologia, tem o condão de reforçar discurso para movimentos antivacina, ao mesmo tempo que demonstra a qualificação do Programa Nacional de Imunizações, atento a efeitos adversos manifestos em reduzido percentual de pessoas imunizadas. 

Em outubro de 2025, o Ministério da Saúde anunciou avanços na cobertura vacinal, que apresentava quedas desde 2016. A retomada positiva, contudo, ainda é considerada insuficiente: na maioria das vacinas, a cobertura do país segue abaixo de 95%, índice considerado ideal para a proteção coletiva.

A paralisação no uso do imunizante do Butantan contra a dengue foi apresentada como uma medida preventiva. Ela ocorre em razão de 42 notificações de sinais de alerta inesperados entre vacinados, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Do total de casos, três foram classificados como graves, incluindo dois óbitos. 

A investigação irá determinar se a vacina teve ou não relação com as situações adversas e inesperadas. 

Como foram aplicadas mais de 501 mil doses do antídoto, os 42 sinais de alerta representam 0,008%. Isso significa que uma a cada 11,9 mil pessoas vacinadas apresentou eventos adversos importantes. Especialistas avaliam que a iniciativa do Ministério da Saúde foi de cautela.

— Pode servir de combustível para quem se diz antivacina, mas temos de entender que isso faz parte de como construímos conhecimento respeitando a ciência — diz o infectologista Eduardo Sprinz, professor de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Ele destaca que os estudos clínicos para uma vacina tem quatro fases. As três primeiras são fechadas, envolvendo voluntários, e a quarta é justamente o monitoramento rigoroso quando se abre para as campanhas públicas de imunização:

— São recrutadas mais pessoas a cada fase. A quarta etapa amplia para a população em geral, mas isso não quer dizer que a vigilância é encerrada. Pelo contrário, existem eventos adversos que podem aparecer quando se aumenta o número de pessoas expostas à vacina ou medicamento.

Se, por um lado, é combustível para quem discursa contra vacinas, também reforça como a vigilância é permanente, em busca de sinais de alerta

EDUARDO SPRINZ

professor de Medicina da UFRGS

A infectologista Carolina Cipriano, do comitê de imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), avalia que a paralisação no uso do antídoto, diante de raras notificações percentuais, mostra que o programa de imunizações “funciona bem”.

— Esse tipo de acontecimento serve para fortalecer a confiança no Programa Nacional de Imunizações e na estratégia vacinal. Comprova que temos uma farmacovigilância eficiente, que age ao menor sinal de que uma coisa está diferente do esperado — comenta Carolina.

Eficiência contra a dengue não mudou

Carolina destaca que a eficácia da vacina do Butantan contra a dengue, medida em 80,5% para os casos graves na fase de estudos clínicos, está mantida.

— Não houve nenhuma mudança com relação a isso. O que aconteceu foi o aparecimento de efeitos não relatados anteriormente. Isso é normal de acontecer em um número muito pequeno na fase quatro, quando a vacina é aplicada em grande número de pessoas. Acontece com qualquer tipo de medicamento — destaca Carolina.

Agora, nas investigações técnicas, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) terão de avaliar se os 42 sinais de alerta estão associados à aplicação da vacina ou não. Isso será fundamental para as orientações futuras quanto ao antídoto do Butantan.

— Temos de entender quais as relações de causa e efeito e quais pessoas têm mais chance de apresentar sinais de alerta. Isso pode levar eventuais grupos de risco a serem excluídos de uma cobertura vacinal — comenta Sprinz.

A alternativa mencionada pelo especialista consiste em identificar que determinado público, seja de faixa etária ou portador de alguma comorbidade, tem propensão a reações adversas. Por isso, como medida de segurança, o contingente pode ser excluído da campanha de vacinação, mantendo a oferta para que os demais grupos populacionais se protejam de uma doença.

Celeridade e transparência

Para Antonio Carlos Bandeira, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a investigação tem de ocorrer de forma célere e transparente, com a participação de profissionais independentes da comunidade científica. 

Bandeira destaca que o desenvolvimento da vacina do Butantan contra a dengue foi um salto da ciência nacional e alerta que demoras e falta de esclarecimentos podem minar a credibilidade.

— Temos de acelerar (a resposta à sociedade) para que não se inviabilize a aceitação da população a um produto que, em princípio, é extremamente seguro. 

Se tiver problema, a vacina tem que ser retirada. Se não tiver problema, isso precisa ser mostrado rapidamente, intensificando a campanha positiva

ANTONIO CARLOS BANDEIRA

membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)

Ele recorda ter participado de apurações, na Bahia, sobre óbitos que aconteceram após a pessoa receber a vacina para a covid-19, à época da pandemia.

— Quando investigamos, descobrimos que aquela pessoa tinha tomado a vacina sem saber que já estava com covid. Acabou morrendo do vírus da covid, e não da vacina — diz Bandeira.

Para o especialista, situações de possíveis efeitos adversos ou mesmo óbitos, em um cenário de aplicação de doses em massa, podem levar a conclusões precipitadas. Por isso, alerta que o mais adequado é aguardar pelas análises científicas.

Infectologistas também destacam que a descontinuidade de um imunizante é um processo previsto em protocolos de saúde. Não é algo excepcional e já aconteceu no passado recente. 

Na época da pandemia de coronavírus, a vacina da Oxford/AstraZeneca sofreu suspensão em diferentes países. Por fim, foi retirada do sistema. Prevaleceram opções mais seguras que foram colocadas à disposição no passar do tempo. Em 2024, a AstraZeneca suspendeu a produção do seu imunizante contra a covid-19.

— Vacina sempre têm benefício muito superior ao risco. A da AstraZeneca ajudou a salvar muitas vidas e, posteriormente, saiu de circulação porque foi associada a alguns casos de síndrome de trombose com trombocitopenia. Era um risco baixo de efeito adverso, mas não desprezível (menos de um caso para cada 10 mil doses aplicadas, segundo o Ministério da Saúde). Ela foi muito útil na pandemia, mas, quando se teve alternativas com risco mais baixo, foi retirada de circulação — frisa Carolina.

Perguntas e respostas

A vacinação com a Butantan-DV será retomada?

Depende dos resultados das investigações em andamento. As orientações serão emitidas pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa quando as conclusões técnicas forem consideradas suficientes. Até lá, as vacinas devem permanecer armazenadas na rede de frio. Elas não devem ser descartadas ou destruídas.

Quais foram os focos de imunização com a Butantan-DV?

A estratégia começou em janeiro de 2026 e teve foco em atender profissionais da atenção primária à saúde — 417.432 doses — e o público de 15 a 49 anos da região de Araguaína (TO) e nas cidades de Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG) — 83.612 doses. No Rio Grande do Sul, 15 mil profissionais de saúde tomaram o imunizante.

O que acontece com quem já tomou a vacina?

O Ministério da Saúde afirma que as pessoas já imunizadas com a Butantan-DV estão protegidas contra os quatro tipos de dengue. A paralisação na aplicação não invalida a eficácia da vacina. A fase de estudo clínico apontou eficiência geral de 65% contra a dengue e de 80,5% para os casos mais graves. 

A recomendação do Ministério da Saúde é para que as pessoas vacinadas observem o estado de saúde por até 21 dias após o recebimento da dose. É adequado buscar atendimento imediato em caso de febre, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, sonolência excessiva e desidratação. Depois de 21 dias, não há mais componente ativo da vacina detectável no organismo.

Como foram os testes clínicos com a Butantan-DV?

Foram realizados estudos clínicos de fase 1, 2 e 3. Mais de 11 mil voluntários foram imunizados e acompanhados por cinco anos para verificação de eficácia e segurança, afirma o Ministério da Saúde. Com esses dados, a Anvisa autorizou a produção e comercialização em dezembro de 2025. É considerada uma vacina 100% nacional. Em dezembro de 2025, Ministério da Saúde e Instituto Butantan assinaram contrato para a compra das primeiras doses.

Qual a situação do combate à dengue no Brasil?

Conforme o Ministério da Saúde, até 30 de maio de 2026, o Brasil registrou redução de 97% nos óbitos e de 94% nos casos prováveis da doença em relação ao mesmo período de 2024. Para efeitos de comparação dos números totais, as mortes por dengue caíram de 6,3 mil, entre janeiro e maio de 2024, para 178 no mesmo período de 2026. Os casos prováveis da doença foram 5,8 milhões no recorte temporal de 2024, ante 365 mil em 2026.

Mesmo com as quedas, a dengue ainda é considerada a maior endemia do país. Além da vacina, a estratégia de combate à dengue inclui a distribuição de inseticidas, larvicidas e equipamentos para as equipes locais de vigilância. O objetivo é identificar e eliminar criadouros do mosquito aedes aegypti, transmissor do vírus da dengue. A população é orientada a colaborar no controle da doença e dos criadouros, eliminando recipientes que possam acumular água parada e manter caixas d’água fechadas.

Existe outra vacina contra a dengue no SUS?

A rede pública de atendimento continua oferecendo imunização contra a dengue para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos com a vacina Qdenga, produzida no Japão. O imunizante é disponibilizado no SUS desde 2024 e cerca de oito milhões de doses foram aplicadas no Brasil.

Fonte: GZH

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