Há poucos dias uma mulher atacou o seu cabeleireiro pelas costas golpeando-o com uma faca sem possibilidade de defesa. A jovem alega que sua ‘franja’ não ficou como gostaria. Em entrevista declarou que estaria ‘triste’ com o ocorrido e, após o procedimento estético ficou ‘InsatisfeitO’ com o resultado. Observem a fala dessa mulher: “eu tava insatisfeitO” reparem a ênfase no ‘O’. Para a psicanálise um ato falho que denuncia algo latente.
O projeto de Lei 896/23 que equipara a ‘misoginia’ ao crime de racismo vem provocando convulsões na sociedade essa que já apresenta espasmos doentios em sua cultura e sobretudo em suas instituições, em especial o judiciário. É importante destacar que esse projeto de lei foi Aprovado com unanimidade pelos Senadores em ano eleitoral, inclusive com o voto do senhor Flávio Bolsonaro. Você precisa ser muito apaixonado por políticos corruptos para não perceber a ‘cortina de fumaça’ que há nisso.
Muitas Pessoas têm declarado que estão com medo de se relacionarem com as mulheres, alegando que uma palavra “errada” já as enquadrariam em um crime de misoginia. Como psicanalista o meu fazer clínico é justamente escutar o inconsciente e especialmente essas ‘palavras erradas’ que de erradas não tem nada no sentido psicodinâmico e, que para a psicanálise o ato falho representa e legitima o desejo que vem do inconsciente. A verdade do Sujeito, ainda que imoral, fictícia, antiética e por vezes criminosa está fora da própria consciência da pessoa.
Conversei com um amigo de longa data que é cabeleireiro e questionei o que pensa sobre esse caso, ele expressa que: “é bem comum a gente como cabeleireiro perceber quando a questão não é o cabelo, a cor ou o corte, que tem outro fundo..” e complementa: “…é nítido que o cabelo não é problema e isso acontece bem frequente e isso é a desculpa para colocar alguma coisa para fora”. Veremos a seguir o que poderia ser essa ‘alguma coisa para fora’ que uma vez saindo do interior é Violenta no exterior.
Minha opinião especulativa sobre o que de fato levou a essa mulher cometer esse ato criminoso é de que ‘Não deu certo!’ não deu certo a sedução. A mulher falhou em conquistar algum objeto de amor, de desejo, simples assim! Não deu certo! O que era para ser Irresistível aos olhos do outro, o outro Rejeitou. A idealização da própria imagem não garantiu o sucesso no enlace do ser amado no campo erótico da realidade, por isso a mulher diz: “InsatisfeitO” ao invés de: ‘eu tava insatisfeitA’.
Quando perguntada o que teria a dizer ao cabeleireiro, a mulher declara: “eu gostaria de falar para ele que ele me Deve Explicações do que ele fez no meu cabelo!”. Ora, vocês não acham um tanto quanto estranho essa coisa enfiada ai no meio, essa coisa “…ele me Deve…”. Será que essa expressão ‘Explicações’ não era endereçada a outra pessoa? Bem como aparece em discussões amorosas: ‘você me deve explicações por não me amar!’. A questão da moral do crime e a preposição de muitos juristas ao afirmarem ‘matou por que roubou!’ quando o filósofo romântico denuncia: ‘roubou para poder matar!’.
O indiciamento (até a data em que escrevi esse artigo) da mulher foi por ‘lesão corporal’, e não por ‘Tentativa de Homicídio’. Diversos operadores do Direito declaram isso ser um absurdo! A jovem se quer foi acusada por ‘homofobia’ como se pode constatar nas suas próprias declarações: “Seu ***** desgraçado arruma meu cabelo” ou “esse ***** vai morrer”. Resta a dúvida: seja no indiciamento ou no futuro acolhimento por parte do ministério público, e talvez julgamento por parte magistratura. Haveria aí uma ignorância, má-fé ou covardia? E se fosse o contrário? A questão é a Mão ou a Faca? Ainda é possível questionar isso nesse país? Ainda que ‘o lugar da mulher é a onde ela quiser’ esses lugares não seriam marcados justamente com ‘O’ lugar?! É possível a mulher deixar de ser a própria vítima/de si mesmA apaixonada pela própria imagem da condição de “InsatisfeitO”?
É possível a “Mulher” ser algo a mais do que uma Vítima?
@fitz_psicanalista
Ricardo Antônio Fitz Pereira é psicólogo clínico, psicanalista, perito externo e entrevistador forense junto ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS). Atua com análises voltadas ao comportamento humano, subjetividade e relações sociais.


















