Na cena do crime, um símbolo pintado com sangue em um armário da cozinha, a vítima no chão, de peito para cima, e as portas da casa chaveadas, sem quaisquer sinais de arrombamento. Na residência e no entorno, nenhuma câmera que registrasse alguma movimentação suspeita. Os mistérios sobre o idoso encontrado morto em Osório, no Litoral Norte, na última quarta-feira (13), desafiam a polícia e deixam amigos e familiares sem resposta. Nenhuma hipótese é descartada pela investigação.
José Alcides Boeira da Silva, 67 anos, foi assassinado, segundo a polícia, com pelo menos três golpes na cabeça desferidos com um objeto contundente. Ele foi encontrado no imóvel onde residia, na área central da cidade, por volta das 9h.
— É estranho, e não descartamos nenhuma possibilidade. Sobre esses desenhos e simbologia, a gente ainda depende de confirmação se tem ou não vinculação com alguma religião ou se pode ter sido um rastro falso — diz o delegado do caso, João Henrique Gomes.
Conforme o delegado, a casa pertencia à atual companheira do idoso, que vive em um município da serra gaúcha. Uma irmã de José Alcides procurou a polícia após ficar mais de 48 horas sem retorno de mensagens ou ligações.
Amigos próximos da vítima contam que ele morava havia cerca de uma década em Osório — na casa onde foi morto, há menos de um ano. O celular da vítima e dinheiro foram roubados no dia do crime, segundo a polícia.

Laudos e oitivas em curso
Em seis dias de investigação, já foram colhidos depoimentos. Novas oitivas estão previstas nos próximos dias. Medidas cautelares foram solicitadas, mas o delegado do caso não informou detalhes ou prazos específicos.
O local do fato foi periciado pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP). Os elementos coletados podem ajudar a polícia a esclarecer indícios de autoria do crime. Entre eles, se o sangue usado para desenhar o símbolo era mesmo do idoso e se havia ou não material genético de outras pessoas no local.
Preliminarmente, segundo o delegado, os peritos estimam que a morte tenha acontecido cerca de 18 horas antes da chegada da polícia.
— Começamos a traçar algumas linhas de investigação, dentre elas, olhar o histórico de convivência, quem são as pessoas com quem ele se relacionava, os locais que ele frequentava. Vamos esgotar todas as diligências para saber se é um autor, se é uma autora, se são vários, e dar a resposta e a responsabilização desse crime inusitado que ocorreu aqui no município — acrescenta o delegado.
Vida pessoal reservada

Divorciado, José Alcides era pai de três filhas e tinha dois netos e uma neta. Segundo a investigação, não tinha antecedentes criminais, tampouco desavenças conhecidas.
— Que essa repercussão toda leve à solução do caso, e que a justiça seja feita — resumiu uma das filhas do idoso, Júlia Galdino, 36 anos.
Popularmente conhecido como “Ché”, o idoso era aposentado e fazia serviços esporádicos na área da construção civil. Por décadas, trabalhou como mestre de obras. A atuação no esporte também marca a trajetória de José Alcides. No time Avenida, jogava como zagueiro e disputou diversos campeonatos.
Antes de se relacionar com a atual companheira, chegou a frequentar os bailinhos da terceira idade da Sociedade GAO, que ocorrem aos domingos e quartas-feiras.
Morte chocou amigos
No último domingo em que José Alcides esteve na companhia de amigos, aparentava estar bem. Era 10 de maio, e ele havia passado em um bar onde costumava ir, a poucas quadras de onde morava.
— Esteve aqui, tomou sua tacinha de vinho branco, já que nunca foi de beber muito, e saiu. Conversamos, tudo normal. Sempre na dele. Era do tipo que só falava se alguém puxasse conversa — lembra o construtor Anderson Rodrigo Bitencourt da Silva, 46 anos.
Outros conhecidos que conviviam com o idoso relataram que, no mesmo domingo, ele chegou a ir à missa na Catedral da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, outro hábito de José Alcides.
— Até brinquei com ele, porque estava usando uma camiseta do AC/DC. Perguntei se ia no bailinho usando aquela roupa. E estava tudo certo. Quando soubemos da morte, foi um choque — conta outro amigo do idoso, o advogado Cézar Dalpiaz, 57 anos.
O velório de José Alcides aconteceu em Osório. Conforme os amigos, estavam presentes a a atual companheira, a ex-mulher e as filhas, que moram em Mostardas.
Fonte: GZH


















