Quando se chega a uma certa fase da vida, tudo ao redor passa a ensinar. Se olharmos com simplicidade — e com disposição para entender — percebemos que cada cena, cada fase e cada acontecimento carrega uma lição.
Tenho um carinho especial por cachorros. Tanto que tenho seis em casa: uma Golden Retriever e mais cinco Dachshunds, os famosos “linguicinhas”. Na frente da minha residência, optei por não usar grades nem muros altos. Coloquei vidro. Quis manter o movimento da cidade visível, sem perder a conexão com a natureza que cerca a nossa rua — sim, a nossa rua. Basta observar as árvores ao redor para entender esse sentimento.
Ali também acompanho, com certa contemplação, três pés de ipê que plantei. Vejo-os crescer dia após dia, quase como quem observa a própria vida se desenrolar.
Pela manhã, tenho o hábito de soltar os três filhotes linguicinhas na parte da frente, para que façam suas necessidades dentro do pátio. Como o muro é de vidro, eles ficam atentos a tudo que passa na rua. E há um personagem recorrente nessa história: um gato.
Aquele gato — que quem acompanha minhas crônicas já conhece — certa vez tentou fazer do meu amigo João-de-barro sua refeição. Felizmente, consegui alertar a tempo e o pássaro escapou. Desde então, o gato segue com sua rotina: passear tranquilamente pela rua.
E, como sabe que há um vidro separando mundos, ele provoca. Caminha devagar, observa os cachorros e parece até desafiar. Do lado de cá, os cães enlouquecem em latidos; do lado de lá, o gato repousa, seguro de si, consciente da barreira que o protege.
Isso virou rotina. Todo dia, a mesma cena: eu acordo, solto os cachorros, e lá vem o gato desfilar diante do vidro, como quem conhece bem os limites do jogo.
Até que, certa manhã, levantei mais cedo. Tirei o carro e, por descuido, deixei o portão de vidro aberto.
Soltei os cachorros, como de costume. Eles, presos à rotina, nem perceberam a diferença. Eu, distraído, observava aquela “dança” diária pela janela — o gato de um lado, os cachorros do outro.
Mas, naquele dia, algo mudou.
Ao final do percurso, onde sempre existia um limite invisível, havia agora uma passagem aberta.
Foi instantâneo.
Os cachorros perceberam. O gato percebeu.
E o que antes era provocação virou corrida.
Os três dispararam em direção ao gato, que, com agilidade e instinto, fugiu em disparada e subiu em uma árvore. Eu corri para fora, recolhi os cães às pressas e fechei o portão.
Silêncio.
E, com ele, a reflexão.
A vida ensina assim.
Muitas vezes, suportamos provocações, enfrentamos dificuldades, recebemos golpes — mas existe um limite, um “vidro”, um controle que nos impede de agir por impulso. Esse limite nos protege.
Mas há dias em que o portão está aberto.
E, nesses dias, se não houver domínio próprio, o impulso toma conta. A reação vem antes da razão — e pode trazer consequências.
Pelo lado dos cachorros, aquele limite também evitava perigos maiores. A rua, os carros, o imprevisível. Ao ultrapassá-lo, entraram em um risco que antes não existia.
E o gato… o gato jamais imaginou que sua rotina segura poderia mudar. Confiava tanto na barreira invisível que passou a brincar com o perigo.
Até o dia em que o vidro não era mais proteção.
Assim é a vida.
Quem provoca demais, um dia encontra resposta. Quem se contém demais, pode explodir. E quem confia demais em muros de vidro, corre o risco de esquecê-los abertos.
E, quando isso acontece, uma simples rotina pode virar história.
Isaac Carmo Cardozo é Tenente da Brigada Militar, Bacharel em Direito pela Unilassale/Canoas, Especialista em Gestão Pública pela UFSM/Santa Maria e Mestre em Políticas Públicas pela Unipampa/São Borja. Escreveu o livro: Monitoramento de Políticas Públicas de Segurança – O Programa de Resistência às drogas e a violência (Proerd) no Município de São Borja. Tradicionalista, é Coordenador da Invernada Especial do Centro Nativista Boitatá. Historiador e pesquisador e apaixonado pela cultura do Rio Grande do Sul.


















