Ex-vereador de Jaguari é condenado a mais de 25 anos de prisão em julgamento que durou mais de 12 horas

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Foto: Saimon Ferreira

Na noite desta segunda-feira (13), após mais de 12 horas de julgamento no Fórum de Santiago, o Tribunal do Júri condenou o ex-vereador de Jaguari Fábio Silva Franco a 25 anos e 3 meses de prisão pela tentativa de feminicídio contra sua então companheira, Susele de Quadros Rodrigues, crime ocorrido no Dia das Mães, em 11 de maio de 2025, no centro de Santiago.

A sentença foi lida por volta das 20h45 pela juíza Cecília Laranja da Fonseca Bonotto, presidente da sessão. Da decisão cabe recurso, conforme anunciado pela defesa logo após o encerramento do julgamento.

Desde as primeiras horas da manhã, o O Radar 360 acompanhou toda a movimentação no Fórum de Santiago.

Chegada das partes

Os primeiros a chegar foram os advogados de acusação e defesa, por volta das 7h50.

Pouco depois, às 8h, chegou ao Fórum Susele de Quadros Rodrigues, acompanhada de familiares.

O réu, Fábio Silva Franco, ex-vereador de Jaguari, chegou sob escolta por volta das 8h10.

Às 9h, foram sorteados os sete integrantes do Conselho de Sentença, composto por cinco mulheres e dois homens, responsáveis por analisar todas as provas produzidas durante o julgamento e definir o veredicto.

Vítima relembra o ataque

Susi Quadros durante depoimento. Foto: Saimon Ferreira

O primeiro depoimento foi o de Susele de Quadros Rodrigues.

Durante pouco mais de 50 minutos, a vítima relembrou os momentos vividos no dia do crime e descreveu aos jurados um histórico de violência durante o relacionamento.

Segundo Susele, episódios de agressão eram frequentes e normalmente começavam com tentativas de estrangulamento.

Ela afirmou ainda que o réu demonstrava ciúmes excessivos, chegando a sentir ciúmes até mesmo de um cantor que aparecia em um videoclipe exibido na televisão.

Em um dos relatos mais marcantes, contou que um dos estrangulamentos sofridos anteriormente chegou a provocar hemorragias nos ouvidos, olhos e nariz.

Ao falar sobre as consequências do crime, emocionou-se ao afirmar que sua vida nunca mais voltou a ser a mesma.

Segundo a vítima, tanto ela quanto sua filha passaram a realizar acompanhamento psiquiátrico após o ocorrido. Ela também revelou que faz uso contínuo de medicamentos.

Outro ponto citado durante o depoimento foi o recebimento, por intermédio de terceiros, de uma carta escrita por Fábio quando já estava preso, na qual ele demonstrava arrependimento e dizia estar sofrendo dentro do presídio.

Após responder aos questionamentos da promotoria, da assistência de acusação e da defesa, seu depoimento foi encerrado às 10h05.

Depoimento emocionante da filha

Fábio acompanha o depoimento do Policial Militar que atendeu a ocorrência no dia dos fatos. Foto: Saimon Ferreira

Na sequência, foi ouvida a filha de Susele, que é menor de idade.

A jovem relatou que tentou defender a mãe durante as agressões e afirmou ter visto o réu com uma faca encostada no pescoço da vítima.

Segundo seu relato, em determinado momento conseguiu abrir a porta do apartamento e começou a gritar por socorro.

Durante o depoimento, emocionou-se e chorou ao lembrar que acreditava que a mãe morreria naquele dia.

Ela contou ainda que um vizinho conseguiu entrar no apartamento e atingiu Fábio com um extintor de incêndio, permitindo que mãe e filha escapassem das agressões.

O depoimento foi encerrado às 10h27.

Testemunhas reconstituem os momentos do crime

Ao longo da manhã, diversas testemunhas foram ouvidas.

A primeira delas, por videoconferência, foi justamente o vizinho que entrou no apartamento durante o ataque.

Ele relatou que inicialmente utilizou o pó químico do extintor para tentar conter o agressor.

Como a tentativa não funcionou, passou a golpear Fábio com o equipamento por diversas vezes, permitindo que as vítimas conseguissem fugir.

Na sequência, prestou depoimento uma vizinha que acolheu Susele e sua filha logo após elas escaparem do apartamento.

Outra testemunha contou que carregou Susele nos braços até o elevador do prédio e a levou ao Pronto Atendimento Municipal, localizado no térreo do condomínio, onde ela recebeu os primeiros atendimentos antes de ser encaminhada ao Grupo Hospitalar Santiago.

Também foi ouvido um policial militar que participou do atendimento da ocorrência, relatando toda a atuação da Brigada Militar desde o acionamento da guarnição até o encerramento da ocorrência.

Fábio acompanha o depoimento do Policial Militar que atendeu a ocorrência no dia dos fatos. Foto: Saimon Ferreira

Durante seu depoimento, o policial foi acompanhado atentamente pelo réu, que permaneceu no plenário.

Ainda pela manhã, o Tribunal ouviu, por videoconferência, a ex-companheira de Fábio Silva Franco.

Ela relatou ter vivido cerca de 11 anos com o réu e afirmou que chegou a registrar ocorrência policial após sofrer um empurrão durante o relacionamento.

Segundo seu depoimento, Fábio era extremamente ciumento, monitorava constantemente sua rotina e o relacionamento terminou justamente em razão desse comportamento.

Na sequência, também por videoconferência, foi ouvida a ex-chefe do réu, quando ele ocupava cargo em comissão na Câmara de Vereadores de Jaguari.

Encerrando as testemunhas, prestou depoimento a irmã de Fábio.

Ela afirmou que o irmão iniciou tratamento psicológico após o filho decidir voltar a morar com a mãe e que, a partir daquele período, passou a consumir bebida alcoólica com maior frequência.

Também declarou ter presenciado episódios de ciúmes entre o casal durante encontros familiares.

Réu nega tentativa de feminicídio

Fábio durante depoimento. Foto: Saimon Ferreira

Por volta das 12h36, teve início o interrogatório de Fábio Silva Franco.

Durante seu depoimento, o réu negou ter tentado matar Susele.

Segundo sua versão, pretendia tirar a própria vida e afirmou que os ferimentos sofridos pela vítima ocorreram quando ela tentou retirar a faca de sua mão.

Fábio declarou aos jurados:

“Em momento algum tentei matar a Susi.”

Ele também afirmou que sequer tinha conhecimento do ferimento existente no pescoço da vítima.

O interrogatório foi encerrado por volta das 13h, encerrando a fase de instrução do julgamento.

Após o intervalo para o almoço, o Tribunal do Júri retomou a sessão às 14h, iniciando a fase considerada decisiva do julgamento: os debates entre acusação e defesa.

O Ministério Público abriu as manifestações por meio da promotora de Justiça Maura Goulart, que passou a reconstruir os acontecimentos do dia 11 de maio de 2025 e a apresentar aos jurados os fundamentos para a condenação de Fábio Silva Franco por tentativa de feminicídio.

Acusação sustenta que réu agiu com intenção de matar

Promotora Maura Goulart. Foto: Saimon Ferreira

Durante sua exposição, a promotora afirmou que as provas produzidas ao longo do processo demonstram que o réu tinha plena consciência do que fazia e que sua intenção era matar Susele de Quadros Rodrigues.

Segundo ela, essa versão é incompatível com o relato apresentado por Fábio durante o interrogatório, quando afirmou que pretendia tirar a própria vida e que os ferimentos da vítima ocorreram durante uma tentativa de retirar a faca de sua mão.

Outro argumento utilizado pelo Ministério Público foi o padrão das lesões sofridas por Susele.

A promotora destacou que os ferimentos nas mãos da vítima caracterizam lesões de defesa, comuns em pessoas que tentam se proteger durante ataques com intenção de matar.

Também rebateu a tese de surto psicótico apresentada posteriormente pela defesa.

Para Maura Goulart, o próprio interrogatório do réu demonstra que ele estava consciente dos seus atos.

Ela citou a declaração feita por Fábio, quando afirmou que pensou duas vezes antes de tentar se jogar da sacada do apartamento.

Segundo a promotora, essa fala demonstra capacidade de discernimento e contraria a alegação de ausência de consciência no momento dos fatos.

Outro ponto enfatizado foi o histórico de violência doméstica atribuído ao réu.

Para o Ministério Público, os relatos apresentados durante o julgamento afastam a ideia de que o episódio tenha sido um fato isolado provocado por um suposto surto.

Vídeo emociona familiares

Um dos momentos de maior impacto do julgamento ocorreu por volta das 15h, quando a promotora exibiu aos jurados um vídeo gravado por uma testemunha no dia do crime.

As imagens mostram os instantes em que a testemunha chega ao local enquanto as agressões ainda aconteciam.

Durante a exibição, a filha de Susele, presente no plenário, não conseguiu conter a emoção e chorou intensamente.

O pai da vítima também ficou profundamente abalado e precisou ser amparado por familiares.

O silêncio tomou conta do plenário durante a apresentação das imagens.

Momento de tensão durante os debates

Outro episódio marcou a tarde de julgamento.

Por volta das 14h52, enquanto a promotora fazia sua sustentação, o Dr. Sérgio Adriano Antunes, um dos advogados da assistência de acusação percebeu que o réu sorria durante a explanação.

Dirigindo-se a Fábio, questionou:

“Tem alguma piada na explanação?”

A manifestação provocou reação imediata da defesa, gerando um breve momento de tensão entre as partes.

Apesar do episódio, os debates seguiram normalmente.

Assistência de acusação reforça pedido de condenação

Na sequência, a promotora concedeu a palavra à advogada Sanandra Quadros, irmã da vítima e integrante da assistência de acusação.

Em sua manifestação, ela reforçou os argumentos do Ministério Público e defendeu a condenação de Fábio Silva Franco por tentativa de feminicídio.

As manifestações da promotora e da assistência de acusação foram encerradas às 15h28.

Defesa pede desclassificação para lesão corporal

Advogado de defesa, Dr. Ariel Cardoso. Foto: Saimon Ferreira

Às 15h35, teve início a sustentação da defesa, conduzida pelo advogado Ariel Cardoso.

Ao longo de aproximadamente uma hora e meia, ele apresentou aos jurados uma tese completamente diferente da acusação.

Segundo a defesa, Fábio Silva Franco não tinha intenção de matar Susele.

O advogado sustentou que o réu sofreu um surto psicótico, afirmando que o consumo de álcool teria desencadeado ou agravado esse quadro.

Também pediu que os jurados considerassem os laudos médicos e o histórico de tentativas de suicídio atribuído ao acusado.

Entre os principais argumentos apresentados, afirmou:

“Ele não tentou matar ninguém. Foi lesão corporal. Não é caso para Tribunal do Júri.”

Também questionou a dinâmica das agressões.

Segundo Ariel Cardoso, se realmente existisse intenção de matar, os golpes teriam atingido regiões vitais.

Em outro momento afirmou:

“Por que quem quer matar não acerta os pontos cruciais?”

A defesa ainda pediu a desclassificação da acusação de tentativa de feminicídio para lesão corporal.

Sua sustentação foi encerrada às 17h08.

Ministério Público rebate a defesa

Às 17h15, a promotora Maura Goulart iniciou a réplica.

Durante cerca de uma hora, rebateu ponto a ponto os argumentos apresentados pela defesa.

Afirmou que em nenhum momento o réu demonstrou preocupação com a vítima, reforçando que sua conduta evidencia a intenção de matar.

Em um dos momentos mais marcantes da manifestação, declarou:

“Nada vai reparar o que aconteceu com a Susi. Até hoje ela não consegue falar sobre isso sem tremer.”

Ao encaminhar o encerramento da réplica, dirigiu-se aos jurados afirmando:

“Absolver o réu é condenar a vítima.”

Logo depois acrescentou:

“Se a pena é alta, é porque ele vai pagar pelo que fez.”

A réplica foi encerrada às 18h09.

Defesa faz último apelo aos jurados

Às 18h36, começou a tréplica da defesa.

Em sua última oportunidade de falar ao Conselho de Sentença, Ariel Cardoso voltou a defender que o julgamento deveria ser baseado exclusivamente nas provas produzidas.

Entre as frases de maior impacto, afirmou:

“Não podemos condenar por comoção social. É preciso ter 100% de certeza para condenar alguém.”

Em seguida, voltou a defender sua tese de ausência de intenção de matar.

Também declarou:

“Não ouçam a defesa. Analisem as provas.”

E concluiu:

“Se não colocou em risco, não há como condenar por tentativa de feminicídio.”

Nos minutos finais, fez um último apelo aos jurados:

“Apliquem para o Fábio o que ele merece, analisando as provas.”

A tréplica terminou às 19h35.

Jurados seguem para votação

Poucos minutos depois, às 19h42, os sete integrantes do Conselho de Sentença seguiram para a sala secreta.

Coube à juíza Cecília Laranja da Fonseca Bonotto conduzir a votação dos quesitos respondidos pelos jurados.

Condenação

Leitura da sentença sendo realizada pela Juíza Cecília Laranja da Fonseca Bonotto. Foto: Saimon Ferreira

Por volta das 20h45, os jurados retornaram ao plenário.

A juíza Cecília Laranja da Fonseca Bonotto realizou a leitura da sentença.

Conforme a decisão do Conselho de Sentença, Fábio Silva Franco foi condenado a 25 anos e 3 meses de prisão.

Da decisão, cabe recurso.

Repercussão

Após o encerramento da sessão, o advogado de defesa Ariel Cardoso afirmou ao O Radar 360 que irá recorrer da condenação.

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A advogada de assistência de acusação Sanandra Quadros afirmou deixar o Tribunal do Júri com a sensação de dever cumprido.

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Já a promotora Maura Goulart informou que o Ministério Público analisará a sentença. Segundo ela, apesar da pena aplicada ser elevada, ela poderia ter sido ainda maior.

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Assim foi encerrado um julgamento que mobilizou a comunidade regional e marcou um dos mais longos e acompanhados Tribunais do Júri realizados recentemente em Santiago, acompanhado durante toda a jornada pela equipe do O Radar 360, desde a chegada das partes até a leitura da sentença.

Fonte: O Radar 360 

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