ESPECIAL SB NEWS | HISTÓRIA, FÉ E CULTURA
Neste sábado, 10 de outubro, São Borja celebra o dia de seu padroeiro, São Francisco de Borja. A data, que é feriado municipal, vai além das homenagens religiosas. Ela representa uma ligação histórica entre a cidade, a fé católica e a formação dos povos missioneiros no Rio Grande do Sul. Em 2026, a celebração ganha um significado especial com os 400 anos do início das Missões Jesuítico-Guaranis em território gaúcho.
Considerada o primeiro dos Sete Povos das Missões, São Borja tem suas origens ligadas à presença dos padres jesuítas e das comunidades indígenas guaranis. Fundada em 1682, a antiga redução recebeu o nome de São Francisco de Borja em homenagem ao religioso espanhol que se tornou uma das figuras mais importantes da Companhia de Jesus.
A história do padroeiro, portanto, está diretamente relacionada à própria identidade do município, que preserva até hoje parte do patrimônio cultural, religioso e histórico construído ao longo de mais de três séculos.
Quem foi São Francisco de Borja?
Francisco de Borja nasceu em 1510, na Espanha, em uma família da nobreza. Foi duque de Gandia e ocupou importantes funções políticas antes de abandonar a vida aristocrática para seguir a vocação religiosa.
Após a morte da esposa, aproximou-se da Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada por Santo Inácio de Loyola. Mais tarde, tornou-se o terceiro superior-geral dos jesuítas, exercendo papel importante na expansão das atividades religiosas e missionárias da ordem.
Francisco de Borja morreu em 1572 e foi canonizado em 1671, apenas 11 anos antes da fundação da redução que receberia seu nome no atual território de São Borja.
São Borja e o início dos Sete Povos das Missões
A origem da cidade remonta a 1682, quando o padre jesuíta Francisco Garcia de Prada participou da fundação da redução de São Francisco de Borja, na margem esquerda do Rio Uruguai.
O povoado surgiu a partir da ligação com a redução de Santo Tomé, situada na margem argentina do rio. Comunidades guaranis tiveram participação fundamental na formação e no desenvolvimento do novo núcleo missioneiro.
São Borja tornou-se o primeiro dos Sete Povos das Missões, conjunto de reduções estabelecidas na segunda fase da presença jesuítica no território que hoje pertence ao Rio Grande do Sul.
As reduções reuniam comunidades indígenas e religiosos em espaços organizados em torno da agricultura, da criação de animais, da produção artesanal, da educação e das práticas religiosas.
Essa experiência deixou marcas profundas na formação cultural da região. Ao mesmo tempo, sua história também envolve conflitos territoriais, disputas coloniais e transformações que afetaram diretamente a vida dos povos indígenas.
Por que os 400 anos das Missões são comemorados em 2026?
A celebração dos 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis tem como referência o ano de 1626, quando o padre Roque González de Santa Cruz iniciou a primeira fase das reduções jesuíticas no atual território gaúcho, com São Nicolau como marco inaugural.
Esse primeiro período foi marcado pela expansão das comunidades missioneiras, mas também por ataques de bandeirantes que buscavam capturar indígenas para escravização. Diante da violência, muitas comunidades foram deslocadas para a margem ocidental do Rio Uruguai.
Somente em 1682 começou a segunda fase, com a fundação de São Francisco de Borja e a posterior consolidação dos Sete Povos das Missões.
Por isso, é importante distinguir as duas datas: 2026 marca os 400 anos do início da experiência missioneira no atual Rio Grande do Sul, enquanto São Borja completa 344 anos de sua fundação missioneira.
São Nicolau e São Borja ocupam, assim, lugares diferentes e igualmente importantes na história regional. A primeira representa o marco da fase inicial das reduções. A segunda deu início ao período dos Sete Povos das Missões.
Um patrimônio que permanece vivo em São Borja
A herança missioneira não está presente apenas nos livros de história. Ela também pode ser encontrada nas manifestações religiosas, nas esculturas, na arquitetura e nas tradições preservadas pela comunidade são-borjense.
Um dos principais exemplos é o Museu Municipal Apparício Silva Rillo, que reúne imagens sacras, esculturas em madeira e peças de arte barroca produzidas durante o período das Missões Jesuíticas.
Uma cartilha sobre a história missioneira de São Borja, disponibilizada pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa) em 2026, registra a existência de 83 peças de estatuária do período reducional vinculadas ao município, incluindo exemplares pertencentes à Igreja, ao museu e a coleções particulares, além de uma peça desaparecida ou destruída.
Esse conjunto representa a habilidade artística dos indígenas guaranis, que desempenharam papel central na produção cultural das reduções.
A fé que atravessou gerações
A devoção a São Francisco de Borja acompanha a trajetória da cidade desde sua origem missioneira.
Embora a presença de comunidades religiosas remonte a 1682, a Paróquia São Francisco de Borja foi formalmente constituída em 2 de maio de 1846. Ao longo dos anos, a Igreja se consolidou como um dos principais espaços de celebração e preservação das tradições católicas do município.
Neste ano, os festejos em homenagem ao padroeiro reuniram fiéis, representantes de instituições e diferentes setores da comunidade.
Na noite de sexta-feira (9), a paróquia realizou uma missa dedicada aos poderes públicos e aos profissionais da comunicação. A celebração contou com a participação da equipe do SB News e de representantes de outros veículos de comunicação.
A programação religiosa teve como tema “Com Cristo, vencer tudo o que divide e destrói”, reforçando mensagens de fé, fraternidade e união.
Uma história que faz parte da identidade são-borjense
Celebrar São Francisco de Borja é também recordar as origens de uma cidade construída a partir do encontro entre diferentes povos, culturas e tradições.
Mais de três séculos depois da fundação da redução missioneira, o nome do santo permanece ligado à identidade do município e à fé de gerações de moradores.
Em um ano marcado pelos 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis, o dia do padroeiro ganha uma dimensão ainda maior: representa não apenas uma celebração religiosa, mas também uma oportunidade de valorizar a memória, reconhecer a contribuição dos povos indígenas e preservar a história de São Borja para as próximas gerações.
Pesquisa histórica baseada em registros da Prefeitura de São Borja, Iphan, Unipampa, Companhia de Jesus e publicações sobre as Missões Jesuítico-Guaranis.
Fonte: SB News

















