Mesmo após o enfraquecimento do fenômeno no Pacífico, efeitos na atmosfera podem persistir por meses. Pesquisadores alertam para a possibilidade de um novo período de precipitações acima da média no Estado.
O Rio Grande do Sul poderá continuar sob influência dos efeitos do El Niño mesmo depois que o fenômeno começar a perder intensidade no Oceano Pacífico. Estudos apontam que existe uma defasagem entre o aquecimento das águas e as consequências na atmosfera, o que pode prolongar o período de chuvas acima da média na Região Sul até o outono de 2027.
Atualmente classificado como muito forte, o chamado super El Niño deve atingir seu pico de aquecimento no Pacífico Equatorial no final de 2026. No entanto, pesquisadores alertam que o enfraquecimento do fenômeno não representa o encerramento imediato dos riscos climáticos para os gaúchos.
Durante o Encontro Nacional de Desastres, realizado no final de outubro, em Fortaleza (CE), especialistas apontaram que pode haver um intervalo de aproximadamente três meses entre as mudanças nos índices do El Niño e seus efeitos sobre o Sul do Brasil.
Segundo o hidrólogo Fernando Fan, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os impactos podem permanecer até junho de 2027, mesmo que o fenômeno comece a perder força em março.
O pesquisador explica que a energia acumulada pelo aquecimento do oceano não é transferida imediatamente para a atmosfera. Esse processo ocorre gradualmente e pode fazer com que regiões mais distantes do Pacífico, como o sul da América do Sul, sintam os efeitos posteriormente.
O climatologista Francisco Eliseu Aquino, também da UFRGS, estima que o retorno do Pacífico à condição de neutralidade pode levar de três a seis meses após o pico de aquecimento. Mesmo depois disso, a atmosfera ainda poderá responder à energia acumulada durante o fenômeno.
Histórico aponta possibilidade de novo período de chuvas no outono
Um dos pontos que chamam a atenção dos pesquisadores é a possibilidade de um segundo período de intensificação das chuvas no Rio Grande do Sul entre o final do outono e o início do inverno do ano seguinte ao surgimento do El Niño.
A ocorrência desse comportamento, chamado de “repique”, é abordada no livro El Niño — Oscilação Sul, publicado em 2024 pelos pesquisadores Moacir Antonio Berlato, Gilberto Rocca da Cunha e Denise Cybis Fontana.
A obra reúne análises históricas das precipitações no Estado e aponta que, embora os impactos mais frequentes do fenômeno ocorram na primavera e no verão, o enfraquecimento do aquecimento oceânico não significa o fim dos riscos. Um novo pulso de chuvas anômalas pode ocorrer no final do outono seguinte.
O comportamento foi observado em episódios anteriores. Em 2023, as primeiras inundações de grande porte associadas ao El Niño ocorreram em setembro e novembro. A fase mais grave, entretanto, aconteceu em maio de 2024, quando o Rio Grande do Sul registrou uma das maiores enchentes de sua história.
Situação semelhante ocorreu no episódio iniciado em 1982. Em maio de 1983, o Estado enfrentou uma nova sequência de chuvas intensas, com precipitações praticamente diárias em importantes regiões agrícolas. As perdas chegaram a 1,2 milhão de toneladas de soja e milho.
Um boletim divulgado no final de outubro pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) também chama a atenção para esse comportamento. Conforme o documento, os principais efeitos do El Niño devem ocorrer na primavera de 2026 e, em um segundo momento, durante o outono de 2027.
Pesquisadores recomendam manter medidas de prevenção
Para Francisco Eliseu Aquino, a aproximação do inverno pode representar um período de atenção adicional. Nessa época, os sistemas e as correntes atmosféricas passam a atuar de maneira mais direta sobre o Rio Grande do Sul, podendo favorecer a ocorrência de eventos extremos.
O climatologista avalia que, em abril e maio de 2027, as condições oceânicas poderão apresentar intensidade superior à observada no mesmo período de 2024. Isso, porém, não significa que uma nova enchente de proporções semelhantes esteja prevista.
A ocorrência de desastres depende também de fatores meteorológicos de curto prazo, como bloqueios atmosféricos, que podem manter a chuva concentrada sobre uma mesma região por vários dias.
Aquino destaca que a permanência dos efeitos do aquecimento do Pacífico pode favorecer precipitações mais frequentes ou acima da média na Região Sul. Por isso, a orientação é que autoridades e população mantenham medidas de prevenção e mitigação mesmo após o início do enfraquecimento do fenômeno.
Super El Niño já ultrapassa 2°C acima da média
O boletim da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), divulgado em 8 de outubro, já classificava o fenômeno como muito forte, condição também conhecida como super El Niño.
A classificação ocorre quando a temperatura das águas do Pacífico Equatorial supera em 2°C a média histórica. No início de outubro, a anomalia já alcançava 2,1°C, e a expectativa é de que o aquecimento aumente até o final do ano.
A intensidade do fenômeno, entretanto, não permite afirmar que o Estado enfrentará necessariamente uma nova tragédia semelhante à de maio de 2024.
O cenário indica aumento da possibilidade de eventos extremos, como temporais, vendavais e inundações. A evolução dessas condições também dependerá de outros fatores climáticos, entre eles a formação de bloqueios atmosféricos e o comportamento da temperatura das águas do Oceano Atlântico.
Fonte: SB News | Com informações de GZH

















